6.12.17

Três cartas


A espada sob a cabeça de Dâmocles vigia a fragilidade da glória e do poder.

A resiliência da fênix renasce das cinzas após a obliteração pelo fogo.

A força da hidra duplica ao ter sua cabeça cortada.

para Elisabete Carvalho e Ana Gabriela Godinho Lima

29.11.17

as duas pinças da Tempestade


Júpiter Tonans
Thundering Jove
Amor arrebatador
O que faz trovejar

A eletricidade
Energia liberada
Do rio represado
Águas passadas

para Asa White Kenny Billings

Contentamento


Recompensa por um esforço
reconhecimento da Dádiva

para Mariana Puglisi

27.11.17

Igarapé na selva de pedra


Achei o último Igarapé no fundo do meu coração e nele lavei minha alma

Simone Sapienza Siss


A produção de um vídeo é o Exercício final proposto para a conclusão da disciplina Urbanismo e espaços públicos: interpretações e projeto, ministrada pelos professores Luis Guilherme Riviera de Castro e Igor Guattelli. Neste roteiro, serão elencados alguns tópicos da disciplina para embasar a proposta do vídeo, que irá registrar um percurso de uma série de espaços públicos no centro de São Paulo, com tempo de cinco minutos.

Mauro Caliari e o ato de flanar pelo espaço público, lugar de temporalidades distintas e sobrepostas. Fernando de Mello Franco e a visão transversal do território, conectando os pontos em busca de visão eficaz da política pública como indutora de qualidade de vida urbana. O rizoma de Guilles Deleuze e Félix Guattari e as Heterotopias Michel Foucault. No texto O Pêndulo de Foucault, Umberto Eco diz o seguinte:

Em primeiro lugar, a abundância de espelhos. Se há espelho, é estágio humano quereres ver-te nele. Mas nestes não te vês. Tu te procuras, buscas tua posição no espaço na qual o espelho te diga "estás aqui, e és tu mesmo", e acabas te danando todo, te aborrecendo, porque os espelhos de Lavoisier, sejam côncavos ou convexos, te desiludem, escarnecem de ti: arredando-te, tu te encontras, mas depois te deslocas e te perdes. Aquele teatro catóptrico fora disposto para tolher-te toda identidade e fazer com que te sintas inseguro de teu lugar. (...) E te sentes não apenas inseguro de ti mas igualmente dos objetos colocados entre ti e outro espelho.

Mas como ver a si mesmo? Ou antes: como se ver refletido no espaço público? Essa a questão inicial colocada por Foucault na Hermenêutica do Sujeito, e é a questão que Sócrates faz a Alcibíades: quais cuidados deve observar sobre si para que possa governar a cidade? Inversamente, olhar no espelho é ver o outro, o que está fora, uma o reverso de si mesmo. O ciclo seria então como a realização daquela certeza que, frente ao espelho existe apenas como reconhecimento da dúvida.

Então, no vídeo, a primeira cena aponta para um lugar que, se verá, de chegada, para o fim do vídeo; e a última cena, no lugar de chegada, observa-se o ponto inicial, onde tudo começou. Haveria, nesse sentido, uma consistência do início ao fim, bem como uma espécie de ritornelo, onde tudo pode ocorrer novamente, ainda que nada seja exatamente a mesma coisa.

O vídeo se dará em plano contínuo e irá enquadrar uma série de elementos urbanos e humanos justapostos. O percurso do vídeo demonstrará a relação cambiante entre estes elementos e suas propriedades topológicas, as quais constituem diferentes densidades e ritmos de um mesmo continuum de espaço público.

Sobre o áudio, a idéia é falar os nomes próprios dos elementos e discorrer sobe toponímias e afins conforme estes forem sendo filmados. Essas nominações seriam como os pontos que o plano contínuo do vídeo vai costurar, Connecting the dots. O percurso visual do vídeo, uma heterocronia, tanto mais vai variar em densidade e ritmo conforme varie o áudio agenciado: uma coisa é agenciar uma narração, outra é agenciar uma música, outra seria o vídeo mudo. Cada agenciamento específico vai gerar diferentes reverberações, como as ampli[ficções] de Carlos Marchi nas polikatéias de Atenas.

Desse modo os pontos são os seguintes: Cobertura do Condomínio Viadutos, Estadão Lanches, banca de Jornal, ponto de Ônibus, porta giratória de banco, calçada da Mithes Bernar, Viaduto Nove de Julho, parapeitos, pixação, Avenida 9 de Julho e Córrego Saracura, Viaduto Major Quedinho, Praça da Bandeira, Graffitti da Simone Siss, sinalizações, carros, praça, cruzamento, Rua Santo Anônio, Praça General Craveiro Lopes, Bar do Alemão, portão, porteiro, hall do prédio, lustre, elevador, câmera, terraço, mirante, banca de jornal.


22.11.17

Brevidade


Ouço tua voz gravada no celular. Poucos segundos. É uma pequena parte sua, de você, e cada pedacinho tem tanta graça! Ouço tua voz como quem volta para casa. Me pega de susto às avessas: o coração, ao invés de disparar, acalma. É noite alta, mas ouço sua voz e me assaltam poemas de rios que rumam ao interior longínquo, antes de voltar para o mar, noites frescas de cascatas, estar com você junto ao lago, noite quente, estrelada, todas essas cenas que inspiram água, espelho de ti no qual mergulho. Ouço tua voz e sinto tua língua, boca, nariz, o cheiro quente do teu corpo, tua respiração me anima, imaginá-la ofegante, me transformo em corvo, tenho vontade de voar até você, roubar presentes bonitos e brilhantes, ofertá-los aos seus pés, em seguida massageá-los, com mãos fortes e delicados toques. Tua voz me comove, em meio ao barulho das máquinas, poucos segundos, mas por hora aguardo o intervalo entre o cessar das engrenagens e a possibilidade de te ver, de olhos fechados, ouvindo mais uma vez a sua voz. A Lua em Peixes faz trino com Sol e Júpiter em Escorpião, e o silêncio encontra o sonho, em meio ao dia, no presente da sua voz, a vontade de te ver é uma delícia que a panela do tempo cozinha, ponho água no feijão.

original de 31 de outubro de 2017

18.11.17

Temeridade


A imagem pode conter: atividades ao ar livre

o bandeid na chaga aberta
para estancar a sangria
de um corpo acéfalo

12.11.17

Dia de finados


Só para lembrar uma cena do dia 2 de novembro de 2017, que já passou mas não pode passar em branco, estava com mamãe e papai na mesa da cozinha, papo vai papo vem, e papai e mamãe cada qual, declamam poemas que ouviram do Mário Sérgio Cortella, num programa da CBN: "quando morreres, levarás apenas o que tiveres dado", de um poeta iraniano do século X, algo assim; um do Drummond, sobre o andar torto do individuo devido ao peso dos seus mortos; e um do Quintana, epigrafe da sua lápide: "eu não estou aqui". Eu, que não tinha me preparado para o sarau, envergonhado só pude recitar as duas frases de Paulinho, completando o samba de Wilson Batista, que estou estudando: "o meu tempo é hoje, eu não vivo no passado, o passado vivem em mim". É isso, só pra registrar.

para Valleria Lauriiuty

11.11.17

Filhos de Vênus




Minha mãe, professora de música
Meu pai, engenheiro das águas
Música que aquece o peito
Água que flui o espírito

Touro, que exalta a Lua
Libra, que exalta Saturno

para Luiz Gonzaga e Lenilélia Abbamonte da Silva

Pedofilia às avessas


às vezes estou escrevendo algo, e sinto uma consciência narrativa na condução da passagem, e percebo rapidamente que não sou eu, mas estou sendo carregado pela mão como uma criança o Saramago que mora em mim sauda o Saramago que mora em ti dizer te amo


para Maikon K

Bumerangue Brasil


Ninguém conhece o Brasil. Tenho certeza disso. Ou ele foi jantar na casa de alguém? As pessoas se sabem brasileiras, a nacionalidade do seu RG está lá para comprovar isso. Muitas vezes sentem amor à pátria, esse ente soberano, além de amor próprio, claro. E idolatram a bandeira desse ente soberano, e, se necessário, respondem ao seu chamamento, seja lá quem tocar a trombeta. Mesmo assim ninguém conhece o Brasil. O Brasil é irreconhecível. É o que se quiser que seja. E é possível reduzi-lo ao tamanho de um mapa, aquela forma que, mais ou menos, todo mundo conhece. Não conhece? Há, pois bem, tome aqui uma bandeira, hás de lembrar, verde, amarelo, azul, uma faixa branca, algumas estrelinhas, mesmo que não saiba ler há de reconhê-la, leio pra ti o que está escrito lá, repita comigo: “Or dem e Pro gre sso, ordem e progresso, ordem e progresso.

Os comunistas não, são como os judeus, uns com suas bandeiras vermelhas, machados e foices outros com suas estrelas de Davi, e as Torás embaixo do braço. Brasileiro não! Se for católico, sabe que a matriz fica em Roma, se for protestante, na Inglaterra e EUA, e se for evangélico pentecostal, melhor ainda, que a matriz é o Brasil mesmo.

Mas ninguém sabe o que é o Brasil, ainda que desse imenso território possa se fazer essa ou aquela teoria, da mais sofisticada e profunda à mais rasa, tacanha e superficial, e todas tem uma recapitulação histórica, todas contam histórias, com valores e personagens diferentes, e todas sabem muito bem o que contam e o que deixam de falar, o que deixam de fora, cortam e colam pedaços de coisas numa idéia de Brasil, de pátria amada, esse lugar em que todos que amam essa nação, seja lá o que ela for, pertencem. O Brasil se mistura a idéia de terra natal, de lugar de pertença, ainda que esse ou aquele lugar que possamos reconhecer assim não tenha sido assim no passado, e também não o será no futuro.

Mas ninguém sabe o que é o Brasil, mas é possível conhecê-lo melhor, e isso de duas formas. Uma é na prática, como os caminhoneiros e andarilhos, que por necessidade e errância cruzam as fronteiras internas do país, percorrendo-o de norte a sul, de leste a oeste. Fronteiras não são linhas divisórias ou muros, o nome disso é prisão, fronteiras são distâncias, profundidades, uma noção do tamanho da terra. Conhecer as distâncias, e tudo o que muda ao percorrê-las, os hábitos, os sotaques, os lugares, as pessoas. Tudo muda.


E a outra forma de conhecê-lo é pelo ombro dos gigantes, e ai concorrem monumentos e estátuas, como Jesus Cristo e Borba Gato, com pessoas comuns, intelectuais e populares, como Darcy Ribeiro e Carolina de Jesus. Pessoas estas que organizam o território através da fala e da palavra escrita, e que dão forma mesmo ao Brasil a partir de tudo o que de fato é, essa infinidade de coisas, mas coisas que podem ser mesuradas, não só sob a lente de uma moral qualquer, da vigilância severa e dos cifrões do lucro, também por isso, mas pela sistematização de tudo aquilo que é documentado, registrado, sejam os livros de cartório ou a famosa foto com as cabeças do bando de Lampião. Mas o Brasil não tem forma fixa, é um monstro mutável e mutante, como uma grande baleia está para o mar. Graças a Deus, a Virgem Maria, a todos os santos e santas e Orixás. E Tubinambás.

Derivadas da Ordem


Nenhum texto alternativo automático disponível.

e a arte escapa pelos memes
enquanto fascistas de plantão
espionam suas próprias mentes sujas
sobre a cortina de fumaça
do melhor charuto de Cuba

A benção da encruzilhada


Ontem, 9 de novembro de 2017, Fernando de Mello Franco realizou uma palestra sobre projeto e política pública, para a disciplina Espaços Públicos, Situações e Projetos, ministrada pelos professores Luiz Guilherme Rivera de Castro e Igor Guatelli. Convidado para ser secretário na gestão Haddad (2013-2016), confessou que não teve que disputar o cargo, pois a então Secretaria de Desenvolvimento Urbano era de pouco interesse quando da fatia do bolo da máquina estatal: “public policy não interessa para politics; considero isso uma tragédia”. Doravante, o que pude observar nas três horas de conversa foi um profissional dez anos mais amadurecido desde aquele trabalho seminal apresentado na III Bienal de Roterdã em 2007, Vazios d’água, e doze anos a contar da publicação da sua tese de doutorado A construção do caminho: a estruturação da metrópole através da conformação técnica da Bacia de São Paulo, em 2005.

Integrante do grupo de pesquisa Metrópoles Fluviais e discípulo de Alexandre Delijaicov, Fernando discorreu sobre a condição complexa e multifacetada de São Paulo, estruturando o seu pensamento a partir de um quadro denso e amplo de intelectuais. E desabafa quando da atuação como secretário: “quando algum adversário político queria me desqualificar, dizia que eu era muito acadêmico, excessivamente; é o cúmulo do disparate tentar desqualificar uma pessoa pela sua inteligência”.

E por que um sistema de planejamento? Encruzilhada da Ladeira Porto Geral com a Rua 25 de Março, aparentemente um retrato de balbúrdia, esse centro de alto dinamismo econômico recebe diariamente cerca de quinhentas mil pessoas, aproximadamente a mesma quantidade de turistas nas Olimpíadas do Rio de Janeiro em 2016. Cita Alfredo da Silva Telles: “desordem é um tipo de ordem que não nos convêm”. E mais, há várias ordens concorrendo concomitantemente, impondo procedimentos necessários para dar forma à organização de conflitos. Daí que se percebe: Política com P maiúsculo não é para qualquer um, ainda que cada politic jogue o jogo como melhor lhe apetecer, mesmo que seja com temperamento sórdido. O que não ocorre com Fernando, cuja perspicácia e precisão nos argumentos já pude observar em diferentes ocasiões e contextos.

E como interpretar o território? Oras, os rios e marginais de São Paulo não são exclusivos de seus munícipes, e desde a estruturação do sítio urbano pela implantação da ferrovia, na segunda metade do século XIX, observamos a ruptura com as águas como uma consequência da cidade industrial. Isso não é caso exclusivo de São Paulo e pode ser observado em várias cidades, entre estas Barcelona e Nova York. E não foram nem os rios nem as rodovias, mas antes a ferrovia o próprio elemento fundacional da metrópole contemporânea, e que transformou decisivamente as áreas de várzea dos principais rios da bacia do Alto Tietê.

E como operar o projeto? Políticas setoriais não bastam, mas integrá-las por si só também não é garantia. Para isso, duas premissas devem ser existir: possibilidade de singularização de setores específicos do território, desde que existam os instrumentos regulatórios – um cardápio de ingredientes – e mecanismos de financiamento – a possibilidade de bancá-los. Uma vez que essa costura seja feita – quem vai dar a receita é o projeto, esse posicionamento que é exigido quando o programa de determinada questão é colocado. E de foi de fato o manual de operações para tal máquina de costura foi inscrito e gravado no município com um trabalho vigoroso da SMDU, e de forma inédita, que incluiu nesse interim uma ampla participação de vários setores da sociedade, entre estes as universidades. Quem acompanhou sabe o peso que tem todo este trabalho, ainda que alguns tentem, nos desdobramentos da atualidade – essa superfície de mar revolto – destruí-lo. Todavia, ainda que tenha havido mudança radical no curso recente da administração da coisa pública, existe uma crise geracional pode ser benéfica enquanto catalisadora de mudanças. Há de se observar.

E como efetivar a política pública? A única forma de empoderar verdadeiramente o cidadão, no sentido de construção de uma consciência política, é provendo acesso à informação e transparência na gestão pública. Ainda que possamos problematizar a veracidade ou legitimidade das informações, ou como diria Adorno, questionar o pensamento pré-estabelecido que muitas vezes domina o próprio ato de pensar, a construção da consciência política passa necessariamente pelo debate público e pela pactuação de um programa de compromissos. Afinal, enquanto uma sociedade achar normal que o motorista de um veículo não pare na faixa de pedestre para a passagem de uma pessoa, o que se vai fazer? Felizmente, não precisamos ficar reféns dessa ou daquela condicionante, mas, uma vez identificada, podemos nos deslocar, para produzir intensidades e para que outras realidades possam surgir.

Como exemplo de projeto de política pública efetivado e reconhecido, foi apresentado o trabalho Conecting the dots que integrará o programa das duas próximas bienais de Roterdã, em 2018 e 2020. O projeto parte de três figuras conceituais – a brincadeira de ligar os pontos 1 2 3 4 5 etc e formar uma imagem; a ligação complicada de pontos que algum investigador precisa resolver para desvendar um crime; e a figuração de constelações na astrologia antiga para estabelecer significações coletivas – e as utiliza para analisar a problemática das bordas metropolitanas. Sobrepõem-se em tais áreas atividades rurais e agrícolas, áreas de preservação e recuperação ambiental, bem como processos de urbanização em que pesem as vulnerabilidades sociais. Considerando o papel da alimentação na história da humanidade, e que problemas alimentares afetam o desenvolvimento cognitivo e acentuam a segregação sócio espacial, foi estabelecido o objetivo de promover uma dinamização ecológica através da economia. Tendo a prefeitura como grande mercado produtor de refeições – cerca de 2,5 milhões de pratos/dia – e também o crescimento na produção de alimentos orgânicos de 26% ao ano, Conecting the dots se mostrou um mecanismo de construção da própria política pública em si, fornecendo subsídios para o incremento de uma agricultura urbana e familiar e que se encontra fora da cadeia do agronegócio, que produz a granel. Em suma, o que a aplicação desse projeto propicia é construção de outras máquinas a partir o reconhecimento das engrenagens, bem como a articulação com outras e novas engrenagens.



Finalmente, na última questão da noite, mas não menos inquietante: por que é o PCC que está controlando o processo atual de espraiamento urbano em São Paulo? Porque, assim como as milícias do Rio de Janeiro, é uma rede que funciona fora da máquina estatal, adquirindo terrenos desvalorizados, induzindo mesmo processos de urbanização autônoma. E dentro da máquina estatal, com o aparelhamento de igrejas evangélicas cuja força se faz cada vez mais sentir, seja nos grandes centros urbanos, seja no processo de evangelização das tribos de fronteira. Assim, a grande questão que está posta em debate no Brasil não é sobre direita – esquerda ou coxinhas e petralhas, mas sobre a própria existência (e sobrevivência) do Estado enquanto ente soberano das vontades de uma povo e espelho de uma nação.

24.10.17

Da dificuldade de equiparar experiências


A quantas anda a sua pesquisa?

É essa pergunta terrível e assustadora, embora tão cotidiana, que vai se repetir eventualmente conforme se desenrolem conversas eventuais ou fortuitas entrecolegas, seja de mesma profissão seja de outras áreas. “Ah, vai bem”, “Ah, vai que é uma merda”, “Nossa, descobri uma coisa inusitada mas não vou te contar senão você rouba minha idéia!”.

Vai lá fulanis, fala sobre sua pesquisa.

É muito difícil falar sobre a própria pesquisa, mesmo quando o subject de quem pesquisa é muito claro, a pesquisa deve(ria) sempre conter alguma novidade, mesmo que com uma base sólida, de modo que uma pequena novidade desencadeia, como um pavio, uma pergunta inquietante: mas por que assim?

Mas por que assim? Quais são os autores, as referências da sua pesquisa?

Olha, o subject navega por vários autores, tenho referências, livros consagrados, teses aprovadas e citadas, artigos internacionais de vanguarda, e mais ou menos experiência in loco, de campo, etnografia, bater pé e levantar parâmetros de observação a partir de uma experiência in loco. E autores que bateram lá suas pernas, realizaram viagens maravilhosas, e sínteses invejáveis, de cidades e projetos.

Mas e a estrutura, e a estrutura da sua tese? Prefácio? Capítulos? Quanto são?

A estrutura é um esboço que vai mudando, um texto contínuo da pesquisa que vai sendo tecido e cortado e recosturado, patchworking, e cujo andamento, ritmo, vai variar caso a caso. Escrevo uma tese, um artigo, um poema, uma carta de amor, escrevo e erro, rasuro, cada coisa tem um tempo diferente, e a estrutura vai se moldando, endurecendo ao mesmo tempo que não, porque tudo que endurece demais quebra, então há de se manter flexível, como um pinheiro se curva à tempestade, senão quebraria, anedota de merda, mas tão verdadeira, eis que quebramos.

21.10.17

a Casa das prisões


Lobo da Estepe

Marte e Júpiter Escorpião na XII
o Caos antes do (re)nascimento
Gosto

20.10.17

Ou o tiozinho da sukita


sexta feira loka
bombô a peruada
carnaval fora de época
música ruim, bebida ruim
gente branca e rica
causando no centrão
que inveja da mocidade!

Queria tá lá, de verdade,
rebolando até o chão
sem me preocupar com a polícia
mas já sou de outra geração
e tenho que me dar o respeito

evitar ser a Gretchen
(não é pra qualquer uma)

para Alexandra Tulani Oranian

Ração


O que significa um governante oferecer ração para seu povo?

“Mas eles tem que comer! Se dêm por agradecidos por terem o que comer. Afinal, pouco se morreu de fome nos últimos anos!” (entortada política) Corta!

Darcy Ribeiro, em reportagem: “A classe dirigente (da política brasileira) é tacanha! Pra ela, pobre é carvão pra queimá, nada mais”. Corta!

A industrialização da comida, matrizes rurais de toda ordem (a nível global), latifúndios, plantations, as colônias de judeus na Palestina e abatedouros de animais (aproveita-se até a última tripa do osso). Corta!

A idéia de Tekoha, de uma terra de pertença, onde tem um rio, um riacho, uma queda d’água na colina; vai até ali, naquela cumeeira do morro, embaixo tem outra. O jeito de plantar junto Mandioca, Feijão, Amendoim, pra nascer tudo junto, mas cada um na sua época certa. Corta!

Várias cenas são possíveis, comendo a gororoba, várias formas de cerceamento e coerção – coesão na “gestão do coletivo” (cara de aspas bem cínicas com mexida no dedinho), outras associações, das mais indigestas às mais inusitada (feijoada foi feita a partir de ração?), mas sobretudo aquela idéia que qualquer mente burguesa esclarecida ou comunista inverterada hão de concordar na mesa do bar, a idéia de que a comida, a janta, o almoço, o café da manhã, a própria idéia básica e divina de nutrição é algo que, pelo menos à luz dos holofotes, deveria se realizar como algo sublime – muitas vezes grotesco e soberbo – e sagrado, um ideal social-democrata plausível de se cumprir. Só que não! Corta!


Novas formas de reinvenções são necessárias, a partir da guerra que existe a partir daquilo que é considerado normal, passando pelo plausível e a prática do tosco, tacanho e terrivelmente bruto e violento, até aquilo que é considerado absurdo e inaceitável, e que, numa “perda da razão”, até mesmo o indivíduo mais são pode fraquejar, e se entre aos acasos da inevitabilidade. Existem outros meios?

para Leônidas Valverde e Isabela Penov

14.10.17

metal e pedra


gaivotas preguiçosas
observam
a tarde, o pôr do sol
em cima dos titãs

10.10.17

Em terra de mudo


O rei da mímica não precisa de palavras

14.9.17

um antiponto final


etc...
com licença poética
a reticência é praticamente

para Pedro Corradi e Norival Leme Junior

Eu sou o Cupido


Hoje de manhã eu vi um casal
se beijando apaixonado
na esquina do Estadão.

"Ó os Enamorados
da carta VI do Tarot aí"
pensei

para Marina Pedreira de Lacerda e Pedro Vada
(que posteriormente se identificou como a enamorada em questão)

2.9.17

O resto é lucro


Discernimento
Criatividade
Ócio

para Lígia

20.8.17

Para poder voar


Milhares de aviões cruzam os céus do mundo todos os dias, e na maioria desses dias procede tudo conforme o plano, conforme a técnica, a precisão e a perícia, sem notícias ruins. Pra mim, cujo temor do bicho metálico só não é maior do que a partida para a Noite Grande em si, se esse dado não é um indício claro da providência divina incorporada na mais pragmática das razões, eu não sei o que é. Os ateus vão dispensar a providência divina e ficar só com a técnica; já eu preciso de fé

18.8.17

Não azeda meu role


Eu gosto de beber
Amo a alegria

Estar alegre, desperto e atento
é uma dádiva

Mas eu não gosto de confusão
furduncinho mal intencionado
Zé ruela, arrastão

Indomável


Homem e Cavalo
formam uma máquina de guerra
quando o estribo libera o braço
arco e flecha

Mas ninguém monta o Sagitário
à exceção da mulher amada

15.8.17

Jorrante de cartas


Poker é o carai
aqui é truco
cacheta
pohha

2.8.17

do temperamento sórdido


Olhos bem vermelhos
para suportar o calor
que estanca a sangria

Sou Artista


Um cara tranquilo
só que não
na verdade um terror

já desci nas profundezas da noite
no fundo do poço, nu
Voei e jorrei
como um foguete fálico
míssil intercontinental
indo de encontro à Lua

Já gravei meu nome
minha cara
na sarjeta

e com isso batizei minh'alma
inúmeras vezes

ouvindo Tim Maia
e tantoutros bambas

10.7.17

Engrenagens


Capricórnio
molda em silêncio

poderosos
encarabolados
chifres

em meio ao som das máquinas

11.6.17

Espírito Bandeirante


Essa sanha do Estado Paulista
ao mesmo tempo locomotiva e âncora
na qual o povo é carvão pra queimar

27.5.17

Skirt


Nas culturas onde os homens usam ou usavam saia, tanga ou similares, o fazem/ faziam (inteligentemente), pelas seguintes razões:

Para a mesinha de café ficar mais arejada;

Para ter mais agilidade ao correr ou desferir voadoras;

além de poder mostrar o seu objeto de poder, que nem os orangotangos;

Para cagar

26.5.17

Barraca Armada


Tinha saído sem cueca, ela sabia. Já saia a algum tempo, apesar dos inconvenientes e cuidado dobrado com aquela “última gota” da mijada, não deixar o cú sujo, claro, etc. Acontece que o tempo ficou muito seco e muito quente e eu tinha que trabalhar de calça, stress do cotidiano, moral da história: queimação nas‘junta interna da coxa. Solução: tirar a cueca já ajudava no role. Claro que ela não sabia de tudo isso, mas sabia me deixar com tesão, era só ela roçar a língua em mim, encostar em mim com aquela risada safada, de quem sabe torturar; apesar de estar sendo humilhado, pois havia pessoas em volta, eu gostava. Humilhado, e de pau duro no metrô, respirando fundo para arejar os vasos sanguíneos e encolhendo a barriga, tudo para diminuir a dilatação do foguete. Aconteceu várias vezes, lendo Pequenos Pássaros e outras histórias eróticas, da Anais Nin.

25.5.17

Fornalha


Ponham seus óculos de sol
que eu vou abrir meu coração

20.5.17

mais liso que sabão


Mestre dos magos em saídas à francesa

Erotic Dreams

Sonho que coloco em você o membro de carne dura e úmida, enorme e teso, sua fenda marítima e profunda, as formas perfeitas de boca e peixe do mundo, mas muito gostoso, então eu tiro para não gozar, e você me olha em súplica, querendo muito, quase chorando, então respiro fundo, concentro força no foguete e coloco quente, devagar e forte até o fundo, ai você goza com força total e graça e gotinhas de um líquido claro e brilhante jorram para cima perfeita e lentamente, nessa hora a gravidade parou, e vou olhar para sempre a sua boca bem aberta gritando, a luz amarelada e quente envolvendo seu corpo moreno, os dentes bonitos e os olhos bem fechados, mas agora faz silêncio, e as gotinhas ficaram flutuando no ar

Quem tem Mercúrio em Virgem


fazê faxina
cortáaz'unha
lavarasrroupa
tocar viola

escrever milhares de palavras
que façam algum sentido
(não só para mim)

cuidá jardim
visitar família
tocá viola
ler'ostexto
tirá foto do gato
provavalmente fazer rolezinhos marotos

pelamor dois dia é pouco
mas é o que tem

Gozar


Logo depois de você

Quem tem Marte em Escorpião


Pesadelo sob Algol
Perseguição
Sorrateiramente dou a volta
visualizo a rota de fuga
e discreta e precisamente
pelas costas do perseguidor
passo o bisturi na sua jugular

Cantil de Guerra


Oásis
Miragem
dunas
baionetas
suor

águardente

para Albert Camus

18.5.17

Rádio Peão


na velocidade de Mercúrio
um furduncinho chamado
grupinho de watz

Gatuna


uma carta de duas mangas

Pomba gira


Uma mulher dançando e girando e cantando loucamente
insubmissa e inconsolável
no meio da rua
no cruzamento da Consolação com o Minhocão
frente à Rosa dos Ventos
Essa praça metropolitana travestida
com nome de presidente norte americano

Travestidos os fatos
o dia se exauriu em noite
e o fogo do Sol foi brilhar num sonho
de fogueiras e mariposas
ao som de uma guitarra flamenca

para Letícia Helena Coca Santa Cruz

Teatro Mágico


um bom dia que desmontasse
o mais torpe dos bandidos

carpe diem

para Sociedade dos Poetas Mortos e Lobo da Estepe

12.5.17

Pneu


A roda gira
mas também balança

11.5.17

Rei Momo


Lendo o jornal
naquela cagada matinal

se fantasia de juiz

9.5.17

Lua em Escorpião


Violão fiel
Violeiro cão

para Belchior

8.5.17

Piracema Café


Tinham combinado apenas um café. Apenas isso. Naquele lugar perto da praça, o dia estava bom, ainda era verão. Mas a coisa foi se transformando. “Ta bom o café?”, “uhum”, e olhava para aquele rosto felino. Tinha dificuldade em definir precisamente o que fascinava tanto, mas de fato era felino, algo selvagem, indomável. E o rosto que admirava não se imaginava belo, ainda que obstinado, não que isso importasse tanto, mas sim o que estava além do rosto, que nele se afundava, um acento,  os olhos algo tortos mas que se abrem como buraco negro no qual talvez valha a pena se jogar, deixar-se arrastar pela magnética gravidade, afundar num lago escuro e noturno de lua fria e águas termais, o banho quente de dorsos nus emaranhados em meio ao vapor de névoa quente e úmida de uma fonte termal, bocas e línguas e ouvidos, narizes pescoços, que parte é essa, um ritmo lento, o som de pequenos grilos e outros insetos, o encaixe fundo dos corpos lisos e molhados na noite fria e água quente, peixes imóveis em si, rodando um no outro, as peles lisas e molhadas roçando, o cheiro de mato e relva, amargor doce e suor, e beiços e tetas e línguas e peitos como peixes, mas também cobras e sapos, um estalo, explosão.


Pagaram a conta, e a mesa ficou vazia.

7.5.17

Desenho cego


das curvas dos corpos
às curvas das ruas
rastreando traços
tateando rastros

28.4.17

Dança Cósmica


Corpo Sútil
Veículo Pneumático
a Descida das Esferas

Carimbos
de uma flor
duas Mãos

para Letícia Helena Coca Santa Cruz

25.4.17

Cego astrólogo


na cidade grande
é difícil enxergar
as estrelas do céu

22.4.17

dez em um


Aqueles poemas que não são só vaidade
(ainda que caligrafia
 exercício de linguagem)

mas são sim
nua e crua
a dura verdade

quem sabe um dia
esculpida em mármore

21.4.17

pela noite da cidade


No pequeno jardim
o grande casulo
cultiva uma mariposa
que vai voar