14.10.17

metal e pedra


gaivotas preguiçosas
observam
a tarde, o pôr do sol
em cima dos titãs

10.10.17

Em terra de mudo


O rei da mímica não precisa de palavras

14.9.17

um antiponto final


etc...
com licença poética
a reticência é praticamente

para Pedro Corradi e Norival Leme Junior

Eu sou o Cupido


Hoje de manhã eu vi um casal
se beijando apaixonado
na esquina do Estadão.

"Ó os Enamorados
da carta VI do Tarot aí"
pensei

para Marina Pedreira de Lacerda e Pedro Vada
(que posteriormente se identificou como a enamorada em questão)

2.9.17

O resto é lucro


Discernimento
Criatividade
Ócio

para Lígia

20.8.17

Para poder voar


Milhares de aviões cruzam os céus do mundo todos os dias, e na maioria desses dias procede tudo conforme o plano, conforme a técnica, a precisão e a perícia, sem notícias ruins. Pra mim, cujo temor do bicho metálico só não é maior do que a partida para a Noite Grande em si, se esse dado não é um indício claro da providência divina incorporada na mais pragmática das razões, eu não sei o que é. Os ateus vão dispensar a providência divina e ficar só com a técnica; já eu preciso de fé

18.8.17

Não azeda meu role


Eu gosto de beber
Amo a alegria

Estar alegre, desperto e atento
é uma dádiva

Mas eu não gosto de confusão
furduncinho mal intencionado
Zé ruela, arrastão

Indomável


Homem e Cavalo
formam uma máquina de guerra
quando o estribo libera o braço
arco e flecha

Mas ninguém monta o Sagitário
à exceção da mulher amada

15.8.17

Jorrante de cartas


Poker é o carai
aqui é truco
cacheta
pohha

2.8.17

do temperamento sórdido


Olhos bem vermelhos
para suportar o calor
que estanca a sangria

Sou Artista


Um cara tranquilo
só que não
na verdade um terror

já desci nas profundezas da noite
no fundo do poço, nu
Voei e jorrei
como um foguete fálico
míssil intercontinental
indo de encontro à Lua

Já gravei meu nome
minha cara
na sarjeta

e com isso batizei minh'alma
inúmeras vezes

ouvindo Tim Maia
e tantoutros bambas

10.7.17

Engrenagens


Capricórnio
molda em silêncio

poderosos
encarabolados
chifres

em meio ao som das máquinas

11.6.17

Espírito Bandeirante


Essa sanha do Estado Paulista
ao mesmo tempo locomotiva e âncora
na qual o povo é carvão pra queimar

27.5.17

Skirt


Nas culturas onde os homens usam ou usavam saia, tanga ou similares, o fazem/ faziam (inteligentemente), pelas seguintes razões:

Para a mesinha de café ficar mais arejada;

Para ter mais agilidade ao correr ou desferir voadoras;

além de poder mostrar o seu objeto de poder, que nem os orangotangos;

Para cagar

26.5.17

Barraca Arnada


Tinha saído sem cueca, ela sabia. Já saia a algum tempo, apesar dos inconvenientes e cuidado dobrado com aquela “última gota” da mijada, não deixar o cú sujo, claro, etc. Acontece que o tempo ficou muito seco e muito quente e eu tinha que trabalhar de calça, stress do cotidiano, moral da história: queimação nas‘junta interna da coxa. Solução: tirar a cueca já ajudava no role. Claro que ela não sabia de tudo isso, mas sabia me deixar com tesão, era só ela roçar a língua em mim, encostar em mim com aquela risada safada, de quem sabe torturar; apesar de estar sendo humilhado, pois havia pessoas em volta, eu gostava. Humilhado, e de pau duro no metrô, respirando fundo para arejar os vasos sanguíneos e encolhendo a barriga, tudo para diminuir a dilatação do foguete. Aconteceu várias vezes, lendo Pequenos Pássaros e outras histórias eróticas, da Anais Nin.

25.5.17

Fornalha


Ponham seus óculos de sol
que eu vou abrir meu coração

20.5.17

mais liso que sabão


Mestre dos magos em saídas à francesa

Erotic Dreams

Sonho que coloco em você o membro de carne dura e úmida, enorme e teso, sua fenda marítima e profunda, as formas perfeitas de boca e peixe do mundo, mas muito gostoso, então eu tiro para não gozar, e você me olha em súplica, querendo muito, quase chorando, então respiro fundo, concentro força no foguete e coloco quente, devagar e forte até o fundo, ai você goza com força total e graça e gotinhas de um líquido claro e brilhante jorram para cima perfeita e lentamente, nessa hora a gravidade parou, e vou olhar para sempre a sua boca bem aberta gritando, a luz amarelada e quente envolvendo seu corpo moreno, os dentes bonitos e os olhos bem fechados, mas agora faz silêncio, e as gotinhas ficaram flutuando no ar

Quem tem Mercúrio em Virgem


fazê faxina
cortáaz'unha
lavarasrroupa
tocar viola

escrever milhares de palavras
que façam algum sentido
(não só para mim)

cuidá jardim
visitar família
tocá viola
ler'ostexto
tirá foto do gato
provavalmente fazer rolezinhos marotos

pelamor dois dia é pouco
mas é o que tem

Gozar


Logo depois de você

Quem tem Marte em Escorpião


Pesadelo sob Algol
Perseguição
Sorrateiramente dou a volta
visualizo a rota de fuga
e discreta e precisamente
pelas costas do perseguidor
passo o bisturi na sua jugular

Cantil de Guerra


Oásis
Miragem
dunas
baionetas
suor

águardente

para Albert Camus

18.5.17

Rádio Peão


na velocidade de Mercúrio
um furduncinho chamado
grupinho de watz

Gatuna


uma carta de duas mangas

Pomba gira


Uma mulher dançando e girando e cantando loucamente
insubmissa e inconsolável
no meio da rua
no cruzamento da Consolação com o Minhocão
frente à Rosa dos Ventos
Essa praça metropolitana travestida
com nome de presidente norte americano

Travestidos os fatos
o dia se exauriu em noite
e o fogo do Sol foi brilhar num sonho
de fogueiras e mariposas
ao som de uma guitarra flamenca

para Letícia Helena Coca Santa Cruz

Teatro Mágico


um bom dia que desmontasse
o mais torpe dos bandidos

carpe diem

para Sociedade dos Poetas Mortos e Lobo da Estepe

12.5.17

Pneu


A roda gira
mas também balança

11.5.17

Rei Momo


Lendo o jornal
naquela cagada matinal

se fantasia de juiz

9.5.17

Lua em Escorpião


Violão fiel
Violeiro cão

para Belchior

8.5.17

Piracema Café


Tinham combinado apenas um café. Apenas isso. Naquele lugar perto da praça, o dia estava bom, ainda era verão. Mas a coisa foi se transformando. “Ta bom o café?”, “uhum”, e olhava para aquele rosto felino. Tinha dificuldade em definir precisamente o que fascinava tanto, mas de fato era felino, algo selvagem, indomável. E o rosto que admirava não se imaginava belo, ainda que obstinado, não que isso importasse tanto, mas sim o que estava além do rosto, que nele se afundava, um acento,  os olhos algo tortos mas que se abrem como buraco negro no qual talvez valha a pena se jogar, deixar-se arrastar pela magnética gravidade, afundar num lago escuro e noturno de lua fria e águas termais, o banho quente de dorsos nus emaranhados em meio ao vapor de névoa quente e úmida de uma fonte termal, bocas e línguas e ouvidos, narizes pescoços, que parte é essa, um ritmo lento, o som de pequenos grilos e outros insetos, o encaixe fundo dos corpos lisos e molhados na noite fria e água quente, peixes imóveis em si, rodando um no outro, as peles lisas e molhadas roçando, o cheiro de mato e relva, amargor doce e suor, e beiços e tetas e línguas e peitos como peixes, mas também cobras e sapos, um estalo, explosão.


Pagaram a conta, e a mesa ficou vazia.

7.5.17

Desenho cego


das curvas dos corpos
às curvas das ruas
rastreando traços
tateando rastros

28.4.17

Dança Cósmica


Corpo Sútil
Veículo Pneumático
a Descida das Esferas

Carimbos
de uma flor
duas Mãos

para Letícia Helena Coca Santa Cruz

25.4.17

Cego astrólogo


na cidade grande
é difícil enxergar
as estrelas do céu

22.4.17

dez em um


Aqueles poemas que não são só vaidade
(ainda que caligrafia
 exercício de linguagem)

mas são sim
nua e crua
a dura verdade

quem sabe um dia
esculpida em mármore

21.4.17

pela noite da cidade


No pequeno jardim
o grande casulo
cultiva uma mariposa
que vai voar

15.4.17

Olho de Gato


não sei como
mas sei o que quero
aguardo pondero
de tocaia te espero

na sombra sepulcral
da noite sem lua
observo atentamente
reflito profundamente
executo num instante


um tiro certeiro

para Marcopablo o Velho

11.4.17

São Circenses


Não há divisão
entre Apolo e Dionísio

Lua Forte


12 de Abril de 2017

Orvalho úmido de Outono
A Lua quase cheia
Damas da Noite em Flor
a Primavera de 68

E a vida, como segue?


Assisti hoje, 11 de Abril de 2017, o excepcional filme Era o Hotel Cambridge, em companhia de colegas da FAU Mackenzie, no cinema do Shopping Frei Caneca, nas palavras da diretora Eliane Caffé um docudrama beckettianamente costurado. Na sequência desenrolou-se uma conversa não menos memorável, no próprio edifício do Cambridge, depois da caravana de estudantes descer a Augusta e seguir pela Álvaro de Carvalho.

Entre o Shopping e o Hotel tornado Moradia, uma colega que visitou a trabalho áreas de assentamento precário conta o trauma que viveu ao ver um nenê lamber a mão depois de lançá-la ao córrego tornado esgoto: alguns salgadinhos caíram no chão, era só pegar! Ela carrega uma lembrança memorável, expectadora de algo mais preciso e cruel do que a noção precedente de pobreza, como tomar o trem lotado quatro horas todo dia; ao nenê, deseja-se e espera-se, tenham seus anticorpos e um mínimo de nutrição conseguido superar o desafio que se colocou tão cedo em seu destino, ainda que os desfechos de quem começa assim possam ser devidamente destrutivos, como aconteceu com aquele ator de si mesmo, Pixote. Pessoas despedaçadas...

Vida que segue, adentramos o Cambridge, o local da trama em si, e descobrimos que, diferentemente de um passado recente, a experiência de revelação própria que o processo do filme suscitou abriu as portas e janelas da ocupação para a rua. E o grande número de pessoas presentes, por volta de oitenta, foi brindado com a presença marcante de Carmen Silva, “protagonista da minha própria vida”, uma das lideranças da Frente de Luta por Moradia – FLM, que interpreta a si própria e à qual segue transcrito aqui um resumo do seu próprio relato.

Nordestina, mãe de oito filhos, sofreu violência doméstica, morou na rua, no abrigo da prefeitura, e acabou indo numa reunião do movimento de moradia depois de uma senhora insistir muito em convidá-la. Pela convicção e graça despojada com que expõe sua certeza no movimento, com aquela tez que a Maria Maria de Milton ilustra bem, fica claro que temos ali uma mulher renascida, que já foi também uma pessoa despedaçada, mas que foi devolvida à sociedade como cidadã que clama pelos seus direitos, nada mais que isso. Cidadania esta que, em última análise, liga todas as pessoas, numa série ininterrupta de reações em cadeia; o individualismo, a isolação, é a morte, mas viver e estar junto, conviver e reconhecer afetos em comum, é o que faz viver.

São Paulo tem 2 milhões de metros quadrados de imóveis sem uso, e um grande fluxo de pessoas que não tem onde morar, como um rio caudaloso e maltratado, um animal acuado e um monte de concreto abandonado. Assim ficou o Cambridge anos antes de 2017, e assim foi com a primeira ocupação de Carmen, o Casarão Santos Dumont nos Campos Elíseos, em 1997. E aderiu ao modo ocupação depois de perceber que a cultura do mutirão, iniciada na Fazenda da Juta no começo da década de 90, estava custando muito caro para os principais interessados, sendo que muitas pessoas morreram sem poder usufruir o mínimo da casa que construíram. E o centro, nessa época, despovoado, aos caprichos daquela nada especulativa e caprichosa espera do mercado: quem faz tocaia fica acordado e apenas aguarda a hora de liquidar a peleja. Repovoar o centro, hora pois – a Paulista tão pujante e as favela tão distante!

A moradia não é uma caixa. Arquitetura é vida, e não o concreto, a caixa quadrada, ainda que para retângulos cada vez menores de CDHU ou PMCMV as Casas Bahia e Lojas Marabrás sempre encontrem soluções ousadas, criativas, inusitadas, e sempre lucrativas. Assim como o teatro não é para os grandes salões, mas para o povo. Assim como devem ruir os parâmetros que encrudescem a Universidade, alijando-a de sua própria destinação: a assessoria técnica a quem precisa, que sofre real necessidade, o projeto embaixo do braço. E ninguém quer nada de graça, queremos comprar! E não precisamos ser proprietários, desde que haja garantia do direito de moradia, assim como reivindicaram militantes da Plataforma de Afetados pela Hipoteca – PAH, durante a exibição do filme no festival de cinema de San Cristóbal, na Espanha. Nessa ocasião Carmen procurou, mas na Espanha por onde andou não encontrou nenhuma rua com o nome Cristovão Colombo. Aqui os nomes dos exploradores são muitos, não cansam de nos lembrar, por que será?

A moradia é essa arquitetura urbana que tem, como grande princípio, a assessoria técnica, pois temos que ser compactos, dado que somos muitos e os recursos poucos. Plano Diretor Estratégico é uma capacitação que o governo tem com suas cidadãs e cidadãos. Tudo o que o movimento de moradia quer é pertencer ao Estado, e não fazer parte deste à contragosto. Combater a lei com a lei, pois mesmo a lei, nas rubricas, se prostitui: se até mesmo o prefeito vai ao exterior vender os números dos nossos Bilhetes de Transporte, leia-se “Títulos de Eleitor”, há de se encontrar outras formas de luta. Como arma contra juízes, usar mixiricas quebrando as cascas. Derrubar os muros, colocar cortinas brancas, adequar o favelão à cidade – um mínimo de infraestruturas – e não sobrepor-se a esta.

Aqui não é acampamento da Cisjordânia; aqui é o Shopping Rua! Tem estrangeiros das mais diversas culturas, mulheres, crianças, toda sorte de gênero, e cabe a preocupação em tentar compreender cada um destes. A comunicação é tudo. Não deixe a arte morrer, pois só a arte é capaz de se entremear por todas as camadas. A essência de vivermos juntos, e tem várias Carmens por ai...
         

4.4.17

o Poder de Sonhar


não importa tanto o que as coisas são
"a vida como ela é"
ainda que se deva refletir profundamente

importa mais como as coisas podem ser
o que tem que ser

2.4.17

Capricórnio


Saturno não caí do cavalo
é antes o próprio cavalo que cai

Caí pelo Tempo
Caí pela Guerra
Caí mesmo por estar distraído
Ou por ser desastrado

Ainda que esteja destinado ao sucesso da escalada
Eventualmente cairá
A queda é inevitável

Vai até o fundo das águas abissais
depois do penhasco há sempre um abismo
até o alto da montanha escarpada

Lá do alto uma ave observa o pico solitário

O vento bate fresco

Coração Bandido


Toda beleza tem algo de sublime e terrível
porque delicada e efêmera

Amá-la é aprender a deixá-la partir

Livro de Versos


a poética do Céu é por demais extensa
ainda que seja simples o ato de contemplá-lo

25.3.17

Na escuridão da madrugada


Uma vez encontrei um mulek sentado encolhido,
Agachado chorando, agarrado às pernas num muro qualquer da Avenida Vergueiro.
Carregava meu violão, pousei-o ao lado, sentei com o mulek.
“Que aconteceu?”
Entre soluços, foi difícil entender exatamente,
Mas eu já conhecia o contexto, até por já ter andado por lá,
e a treta tinha sido feia naquela baixada, a boca da Muniz,
esse baixadão do Glicério, fazendo frente com Aclimação e Cambuci.
Seja lá quem fosse a família do mulek, ele saiu vazado.
Pode ter sido qualquer coisa, a polícia montando base forte, varrendo o local,
Ou uma cizânia interna na casa do mulek. Pareceu ser as duas coisas.
Fiquei sentado lá com o mulek um tempo, ouvindo ele chorar, soluçar.
Alguém passava e se importava, mas o que se vai fazer?
Levar o mulek pra casa?
Deixei ele na rua, dei meu celular pra ele,
ao invés de ser mais sincero e simplesmente dizer : sobreviva, eu não posso cuidar de você!
Mais tarde nessa noite meu celular tocou,
o guri que não lembro o nome queria falar com o amigo dele, Luciano,
chorando por ai na rua ele conseguiu, com outras pessoas, fazer uma ligação,
e a gente conversando com ele, imagino, deixou essa criança seguir à esmo



18.3.17

+ R$ 3,00


aquele pavio chamado vinte centavos

Cavalgando Nuvens


Espetáculo que integra a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo – MIT, ontem hoje e amanhã no SESC Vila Mariana. Um espetáculo fora de série, experiência ímpar.

Yasser e Rabih Mroué, irmãos, ator e diretor, uma câmera na mão. Imersão completa na vida do outro, daquele que se postra no palco e se mostra, desnudo, reinventado por si próprio. E nos mostra a estranheza das imagens capturadas pela câmera, o registro mnemônico da caixa preta, projetado em imagens fantásticas e sons reverberantes, esse ático que existe me cada cabeça – um tiro, uma sentença.

16.3.17

o Tempo não cessou


as minhas vitórias eu vou conquistando
em meio

às quedas
contusões
fracassos
errâncias
derrotas

as cicatrizes
e aquelas feridas que não fecham
(aquele segredinho sujo)

Eu me reergui
porque o jogo é jogado
o jogo da vida
até a hora da morte

Onde está a cura?
quando ocorrem as rupturas irreversíveis
as máculas que se arrastam
as feridas que não fecham

talvez a morte seja a última vitória
não restará nada
nem corpo nem alma

um vai depois
a outra vai primeiro

15.3.17

Conversar com o outro


15 de Março de 2017, São Paulo, 18:30h, início das comemorações de aniversário de 100 anos do curso de Arquitetura e 70 anos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Para dar início às festividades, Paulo Mendes da Rocha, o mais emérito estudante da casa, invocou um extraordinário banquete de celebração: como patrono e anfitrião, na cabeceira da mesa, Cristiano Stockler das Neves, fundador da Faculdade; à sua esquerda, Elisiário da Cunha Bahiana, autor do projeto do Viaduto do Chá, essa matriz de cidade, e da Casa Mapin com seu relógio, até hoje naquela esquina do Centro; à direita; Roberto Rossi Zuccolo, engenheiro calculista, pioneiro na utilização do concreto protendido; Pedro Corona, artista com obras expostas na Pinacoteca; Serafim Orlande, topógrafo, voltando o olhar para o caráter original da geomorfologia do sítio urbano. Com essas cinco pessoas, o tripé arte, ciência e técnica estaria erigido, ainda que um segundo grupo de festeiros tenha chegado depois: Plínio Croce, Fábio Moura Penteado e Alfredo Serafino Paesani (primeiro presidente do Sindicato de Arquitetos do Brasil), Carlos Millan e Eurico Prado Lopes. Fechou-se a roda com todas as pessoas presentes, amantes da arquitetura, da cidade e do design, tocou-se o talher na taça como um sino, e fez-se um brinde, saúde!

Paulo discorreu sobre o desígnio fundamental da cidade, de tornar o planeta e a natureza habitáveis, porque em si não o são, e o quanto, observando o quadro atual, a resposta a esse desafio foi imperfeita, problemática e incompleta. A política ai desponta como evidência material da forma e modo como se habita o espaço. Já Andrea Palladio dizia, há 400 anos, que a cidade era feita de monumentos, mas o que se fundava ali, no renascimento, era a monumentalidade da cidade. O mundo caberia na palma da mão, mas Galileu Galilei, que elucidou a mecânica celeste que possibilitaria as grandes navegações, foi mandado para a fogueira pela inquisição. Nesse contexto, da América contemporânea se formou, como novidade, entre sucessos e fracassos frente aos desafios da civilização.

Com uma pedra amarrada a um barbante, consigo explicar para uma criança sobre o efeito da gravidade. Ela gosta de brincar: prepara o barquinho para descer pela guia d’água; empina com destreza o papagaio no céu; depois usa o barbante para girar o pião. Mas ensina-se pras crianças muita inutilidade, como cortar corações de isopor, pintar de vermelho e ofertar no dia das Mães, assim como o português ofertou o espelho ao índio, sem explicar o mito de Narciso. Isso há pouco mais de 400 anos, a idade em que se fundou o experimento da América, parte de um fenômeno de colonização global que obliterou sociedades sofisticadas como incas e astecas. Também o ameríndio vivia em conformidade e integrado às matas, rios e tudo o mais; hoje o desmatamento da Amazônia é compensado à mea culpa nas cidades com parede verdes, solução pífia!

A dúvida sobre o que deve ser feito, uma abstração, é acompanhada sobre a mais absoluta certeza do que não deve ser feito. O elevador foi o dispositivo que possibilitou o advento do edifício vertical que caracteriza a cidade contemporânea, e é, na escala micro, o que outras infraestruturas metropolitanas – rede elétrica, telefonia, abastecimento de água, saneamento básico etc são na escala macro. Porém, seu uso irrestrito, propiciando outros edifícios verticais per se, tirando-se casinhas aqui e ali e em todo lugar, tem se mostrado parte de um equívoco desastrado, no qual o rés-do-chão raramente alcança a riqueza de térreos de quadra como no caso dos edifícios Copan e Conjunto Nacional.

Em que direção vamos nos juntar para discutir o futuro da nossa espécie em um planeta com sete bilhões de pessoas, e como pensar serenamente sobre a transformação da sexualidade na agenda mundial, questão que sempre esteve ai mas agora aparece com mais enlevo? Qual o conceito que temos de nós mesmos? Como se dá a formação da consciência e da linguagem? Porque a América Latina não tem ferrovias transversais, ligando os Oceanos Atlântico e Índico? Linhas transnacionais, amparando cidades e distribuindo as pessoas, e não mais criando a monstruosidade que é São Paulo, com seus 25 milhões de habitantes. Por que nossos rios não são navegáveis, como o Rhone na França e o Volkhov na Rússia? Ferrovias transnacionais trariam a Paz à América Latina, mas aqui em São Paulo foi mais fácil chamar o operário de baiano. E o colonizador começa a pagar pelos pecados, pela rapinagem, colonialismo predador do planeta que está nos levando à rota do desastre...

Para nós, a natureza não é paisagem; antes um conjunto de fenômenos: dinâmica dos fluidos, mecânica dos solo, estabilidade dos materiais. Enquanto indivíduos, somos muito breves, 90 anos; quando espécie, 4 milhões. Saber morrer é continuar. A disciplina como papel. A arquitetura é um saber peculiar, que possibilita várias aplicações: não só um pilar, janela, parede, cozinha, porta de entrada; mas cinema, teatro, literatura, sem confinar a atividade. Toda a cidade desastrada que ai se construiu não vai deixar de existir, sobre ela há de se ter um ímpeto criativo e inventivo. O conhecimento é um amplo espaço da notícia que se quer dar ao outro.


A existência, desde que nascemos, tem uma dimensão pública. Nada é mais privado do que a mente: posso estar pensando o diabo! Entretanto, tudo o que se forma é porque foi publicado, devidamente. O que seria da um Shakespeare se nunca saísse da gaveta? O pensamento, a música, o poema, a dança, se tornam espaço quando são publicados.

Qual a essência da cidade?


12.3.17

Devoto de Vênus


amante da Beleza
súdito da Paixão
anseio do Desejo

Astrosofia


ao mesmo tempo em que a Astronomia me mostra que a gente não é nada, nem um grão de poeira, nesse maravilhoso, terrível e imenso universo, a Astrologia me diz o contrário, que Eu sou o centro do universo sim, e esse arrumadinho sistema solar é a nossa casa, em meio a toda a agitação da cidade do cosmos

10.3.17

Gêmeos, Peixes


Leões

porque em mim habita uma alcatéia

Balão magenta


cruzou a rua quicando
devagar e feliz
levado pelo vento

livre leve e solto
atravessando a rua
nem viu o que o atropelou

9.3.17

Sete oitavas


o futuro é uma nota brave
a vida, um grito agudo

8.3.17

Dupla face



Foto: Guilherme Motta, 2017

Mural da Rita Wainer, em parceria com Acadêmicos do Baixo Augusta, Rua da Consolação, Fevereiro de 2017. Coincidência espontânea, ainda que auspiciosa, como se poderá verificar, o texto a seguir foi produzido hoje, 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, fruto de uma reflexão que matura já o tempo de uma lunação.

A primeira associação que fiz com essa obra foi a do sentimento nacionalista, que pode se dar mais em relação a um Estado, e mesmo a uma cidade, do que com uma Federação, questão de identidade a partir de fronteiras subjetivas, haja vista, inversamente, o sentimento cosmopolita, de sentir-se cidadã/ cidadão do mundo. Em seguida, a pintura pin-up do Vicente Caruso logo vêm a mente, e toda a história protagonizada pelo Estado de São Paulo em 1932. O triângulo equilátero, “Libertas Quae Sera Tamen”, reforça isso. E lá está a bandeira do Município, a Cruz da Ordem de Cristo alongada e o brasão da cidade, definido assim pela Lei nº 8.129 de 2 de outubro de 1974:

“Escudo português de goles, com um braço armado, destro, movente do flanco sinistro, empunhado um pendão de quatro pontas farpadas, ostentando uma cruz de goles, aberta em branco sobre si, da Ordem de Cristo, içada em haste lanceada em acha de armas, tudo de prata. Em cima o escudo, coroa mural de ouro, de oito torres, contendo em cada torre, três ameias, duas janelas e uma porta. Suporte: dois ramos de café de sua própria cor. Divisa: “NON DVCOR DVCO”, de goles, em um listão de prata”.


Vicente Caruso, 1954

Porém, logo entendi que é uma pintura carregada de ironia e ambiguidade. Afinal, os peixes de Piratininga estão lá, ainda que mais pareçam tubarões: há violência nas águas, mas, como diria Brecht, talvez mais ainda as margens que as comprimam. E há estrelas no céu, o punho erguido para o alto, o cetro é o Sol. For o ponto de vista do fundo do mar, veremos um corpo de bruços; do céu, um corpo de costas; em ambos os casos, Ofélia, boiando nas águas da noite de lua amarela. O muro pressupõe verticalidade, mas a água é fluxo que atravessa o horizonte. Por que(m) chora a lágrima que cai do olho da mulher? O cocar multicolorido, só não vê beleza na diversidade quem não quer. O cocar e a bandeira envelopam a mulher: bandeira de paz, mensagem de amor? João Dória Júnior, em entrevista com Bruna Lombardi em 29 de Março de 2016, disse o seguinte: "se nós pudéssemos contribuir para que a bandeira de São Paulo reproduzisse o sentimento da cidade, seguramente o símbolo seria um coração". Mas se há amor na mulher, sua expressão impávida não transparece: as garras pretas no braço de pele branca podem muito bem estar empunhando uma espada invisível, o vestido ninja e no traço de mangá. Aliás, A CIDADE É NOSSA e tudo que é preto invisível gravado no branco da bandeira de cruz vermelha, os rios e periferias invisíveis de xilogravura e literatura de Cordel.

7.3.17

Hacker


se um dia me tornar
será para acentuar
palavras proibidas

Saturno em Libra


tem um pixo que chama
OS + IMUNDOS

Os mais fodidos
pura treta

mas tão bonito
no Signo de Vênus

Jaula


dizem por ai
que o leão na selva
anda livre
tal qual gatos no telhado

mas não seriam esses
somente
seus ambientes naturais?
Felinas alcatéias 

Safaris urbanos
Reservas indígenas
Redutos quilombolas

à civilização agrada
domesticar
sua ancestralidade