27.2.16

Baden Powell


Toco violão
Valsa sem nome
uma estrela sorri pra mim

Residência


diferenciar o vôo da casa
do João de Barro

o ninho da gaiola

ainda que sejam provisórias

26.2.16

Gatinho


Carapaça de Leão

bem pequenininho
flexível, entra nas menores
frestas, poros da sua pele

com minha língua áspera
você diz

25.2.16

Libra Lua


Lenta como um rio de meandros
inunda delta do rio
do Sol calmaria

Metal pesado


A rua é líquida
os carros

22.2.16

e vice-versa


se for bola, jogador
se for lebre, raposa
um dia da caça...

(levantou)

Afoguetada


Foguete
Combustão
Explosiva

Descoberta
Paixão
Polvorosa

21.2.16

Extravagância


Exuberante
Exagera
Extravasar

mesa de almoço
comida mineira

sobremesa bolo de Fubá
com goiabada e Erva-doce

café bem forte
cachaça arretada!


11.2.16

Mil afogados


Sonhavam pescar sereias
Dormiram embalados
encantaria doce, ironia
veto forte, mar salgado

10.2.16

O Pugilista Amoroso (versão prosa)


(original de 2012, uma cena rápida, curta-metragem)

A noite torna-se outra e a música também muda, a chapa esquenta. Agora é uma big-band jazz que toca metais em brasa. Vista aérea da cidade portuária de Vitória, no Espírito Santo.

Um galpão abandonado no centro da cidade. Dentro, uma luta clandestina de boxe. As arquibancadas estão cheias. O público vibra. Fim do segundo round. O odor de suor, quase uma névoa, veludo que se mistura à fumaça dos cigarros. Das tesouras do telhado descem em escalada as lagartixas, para o bote às moscas e mariposas, esvoaçantes à luz amarelada das lamparinas que margeiam o ringue. Uma coruja observa em desinteressada atenção, prepara seu próprio bote. Embaixo das arquibancadas de madeira, os ratos fazem a festa com os pedaços de comida e amendoim. Um homem puxa assunto:

– Parece que o italiano é favorito. O mulato já era.

O outro responde:

– Mas vá! O Brasil também era favorito ano passado na copa. No fim o Maracanã ficou calado. E mulato sou eu, ele é cafuzo.

Terceiro round. De cada lado do corner, os dois homens se levantam, os corpos brilhando úmidos e quentes. O vapor da combustão sanguínea exala dos lutadores. Adolfo mantém a expressão de razoável tranqüilidade, apesar da forte respiração. Parece quase que gostava muito daquele momento, e se levanta ao ouvir estalar o gongo. Lucas acentua as sobrancelhas em forma de raio, insinua raiva. Mas, sobretudo, o brilho nos olhos de ambos expressa a concentração dos lutadores, e o público de novo vibra.

O ritmo dos ombros inspira uma música rápida, a marcação da bateria do jazz, aguardando a fúria dos metais. Adolfo toma a iniciativa: jabs rápidos e potentes impactam na forte guarda de Lucas, quando esse contra ataca o abdômen do adversário com um cruzado e um gancho baixo em cada mão.

Os golpes espirram a água salgada do corpo de Adolfo, sua boca parece sorrir ao se contrair dos golpes. Sangue latino.

Apaixona-se pelo italiano, num embate em um galpão velho, entre os gritos da pequena multidão. Os jabs, counters and uppers, os cruzados naquele abdômen duro, branco e vermelho. Lindo, que tábua! As sobrancelhas em raio, algo raivosas, feitas! Sino do intervalo. Nota-se a leve ereção, que a cueca reprime por baixo dos shorts.

O velho barreiro joga a toalha na cara de Adolfo:

– Cê ta deixando muito aberto embaixo, porra! – gesticula.

Afinal, vieram de longe, agenda com lutas marcadas em toda a região, um trabalhão!

Adolfo ri, lembra de quando o velho tratou de ensiná-lo, depois daquela surra que levou de um homem mau, há muito tempo atrás.

O maldito tinha machucado-o, antes do velho ajudá-lo. O mestre o ensinou a levantar a guarda e fortalecer sua base. O olhar rápido, a resposta precisa, a execução do golpe certeiro, raio de Xangô! Teve sua vingança, naquela noite de lua nova.

O sino tocou e, sem abrir a boca, voltou ao centro do ringue. Na arquibancada, um homem de chapéu e lenço no pescoço, passa com seu bigodinho, incitando as apostas:

– Tá 3 por 2 pro italiano, é um galo por cabeça, 50 réis! Vamo que já vai fechar.

Infelizmente, o golpe final no quarto round anuncia a explosão do tesão. Aquele sino do fim. O braço de Adolfo levantado, vitória. O shorts murchando, gozado. Lembra de pouco tempo antes, daquele fatídico jogo da seleção brasileira no maracanã, a inesperada derrota para o Uruguai, o fim da copa, o prazer interrompido. Agora a grana da aposta!

Era bom pegar e gastar em outro lugar.


para 'Menphis Design Group'
 Versão poesia

Tarot Furtado




Tarot de Marseille. Furtado em Curitiba. Restaurado em São Paulo

Primeira transcrição de notas
  
O furtado vive com alegria, “porque a vida não é um parque de diversões” ¹.

O presente de estar vivo restitui o que foi furtado. Solidariedade, humildade, gratidão.

O ladrão rouba a cena. Travesti. A gata ladra: a Premissa. Perigo eminente. Tocaia à espreita. Em suma, drama da vida. O que rouba o Espaço é o Tempo. Passado, ou antes, as pré-existências. A cidade. A selva. O desgaste do Coração de pedra.

Entre passado e presente, o futuro é um elo. Desejo de futuro. Brilho de resiliência: Kintsugi -  .

O.
Chegou no dia 27 de Setembro de 2015, num domingo, apesar de ter sido enviado pelo correio. Tornou domingo um dia útil, como o “Recado de Exu” ². Já nasceu torto, gauche na vida. “O louco tem uma rosa na boca e um cachorro mordendo a perna”.

XI-XVI
Subiu sozinho pelo elevador, força mecânica, mandíbula máquina. O feminino roubado da força foi restaurado presenteando o poder do raio.

XCVI-DCC
O Tarot Furtado chegou com o Eclipse da Lua Vermelha, às 22:48h. A primeira coisa que o Tarot do Saturnália fez ao sair da caixa foi cair. Uma carta vermelha. Duas caixas brancas.

VI.
O caos e a sujeira das vivências acumuladas, o estudo inicial (experimentação) até a carta Enamorados. A música que toca é Bala de Festim, do Chico Salem. O fechamento da Caixa de Pandora. O selamento. A reorganização. 28 de Outubro de 2015.

XII.
Távola Redonda. Doze apóstolos. O Enforcado dá um mortal pra trás. “Capoeira não cai, mas quando cai, cai bem”. Besouro encantou-se. Encantaria e mandinga. Saci-Pererê.

XVIII.
Lua nova. Lua oculta. Na superfície, o canino aguarda, o focinho aspira, orelha em pé, “onde está minha matilha”? Como no platô “Um só ou vários lobos?” ³. Um plano superior é como um plano inferior, assim falou Hermes Trimêgistos, assim cantou Jorge Bem Jor. E no plano inferior está o aquífero, e no subterrâneo do mangue o caranguejo. O movimento das mares.

X.
“Porque na vida a gente tem que entender que um nasce pra chorar enquanto o outro ri”. Tem um jogo entre sofrimento e felicidade. O cão que morde a perna.

XXI.
O jogo consiste de um questionamento. É um problema filosófico.  Para este, não existe resposta pronta.

XIIII.
“A verdadeira humildade só pode surgir da mais profunda humilhação”, em “Querelle de Brest”, de Jean Genet.

XI.
A carta 2,  desencanto. A bola branca na caçapa.

Quando o Ladrão do baralho aparece na carta 2 do jogo, o que está sendo roubado é o próprio baralho, ou seja, a magia do oráculo.

para João Fasonare Acuio


¹ verso de poema de Daisaku Ikeda (fonte desconhecida). Na íntegra:

Se não vivermos com alegria, então 
Onde encontraremos o jubilo de nossa existência como seres humanos?
Nossos temores e nossas inquietudes são meras ilusões,
Assim como brotos que se agitam com o vento.
As folhas novas possuem uma fragrância exuberante.
Sobrevivem ao calor e ao frio.
Devemos ter em mente sua imagem.
Nossos pensamentos e esforços, nossa dedicação e pratica.
Tudo isso converterá em nosso sangue e nossa carne,
nunca se esqueçam disso.
A sociedade não é um parque de diversões.
Cultive uma identidade capaz de resistir a tudo que
o tempo e a sociedade lhe apresenta.

² SIMAS, Luiz Antônio. Pedrinhas Miudinhas. Rio de Janeiro: Mórula Editorial, 2013, p. 69-70.

³ DELEUZE, Guilles e GUATTARI, Felix. Capitalismo e Esquizofrenia 2 – Mil Platôs. São Paulo: Editora 34, 2012 (1980),  p. 51-68.

Coração de Pedra


Oceano poroso
Musgo rizoma
Lava Vulcânica

Gradiente deserto

a roupa nova do Imperador


aquele bloco de carnaval da Barra Funda
aquele que sai ali na Rua Marta
Agora Vai!

Aquelas letras safadas
Alegria de Dionísio
Terça feira Afrodisíaca

A companhia do Fauno
mamadeira de Cachaça

A bateria tocando
Funk
Pagode
Axé

A echarpe roxa veio de baixo
da sola dos pés dos foliões
das arlequinas embriagadas

A corrente de ouro veio de cima
não sei de onde
Orixá deu pra mim

para Rafael Puglisi

dilúvio Liturgia


adora andar na chuva
cheiro de asfalto
ou terra molhada

e o temor de um raio
que parta a cabeça
e não sobre nada

9.2.16

meu peito


foi procurar Carnaval
proibido encontrei
Tempestade homérica
uma libélula encontrou

6.2.16

Dá graças, e amém

A vida se dá como um banquete
Você faz o quê?
Come até morrer

Se farta de cada momento
De bandeja, oferecido

Representa cada papel
Com amor e paixão

Pede a benção

Fissão


a loucura é uma forma de demonstrar amor

5.2.16

tatear limites


uma parte quer sair antes da chuva
antes da hora do rush no tremzão lotado

outra parte quer entrar na tempestade
fazer parte do furdunço

força de vontade

4.2.16

Palma


dedo anular
verbo imperativo

da Mão
te ver

3.2.16

Toque de focinhos


Close 1:

junto as palmas das mãos
encostando-as entre o nariz e a boca
num misto de oração e reflexão

meu coração tem pressa

Close 2:

esfregando a palma da mão
entre o nariz, a boca e o queixo

(gesto involuntário
provavelmente uma resposta automática do corpo
para simular uma pele outra)

Pontos de prazer
Zonas de conforto
Frentes de batalha


Aval da Carne


Músicas acordam a bela fera
dormita no peito poeta
teu reflexo

Algo entre o irresistível e o incontrolável
da Esfinge o chamado

o que não tinha nome
agora moldado

Desejo de caça
Caça à Raposa

relatos selvagens
como dois animais

para Agepê, Belchior, Chico Buarque, João Bosco e Alceu Valença

Caliandra


os amores brotam de palavras acertadas
o som da alma, do espírito afinado
descrito no tom certo, elegante caligrafia
jardim de fogo, formosa flor do Cerrado