6.12.17

Três cartas


A espada sob a cabeça de Dâmocles vigia a fragilidade da glória e do poder.

A resiliência da fênix renasce das cinzas após a obliteração pelo fogo.

A força da hidra duplica ao ter sua cabeça cortada.

para Elisabete Carvalho e Ana Gabriela Godinho Lima

29.11.17

as duas pinças da Tempestade


Júpiter Tonans
Thundering Jove
Amor arrebatador
O que faz trovejar

A eletricidade
Energia liberada
Do rio represado
Águas passadas

para Asa White Kenny Billings

Contentamento


Recompensa por um esforço
reconhecimento da Dádiva

para Mariana Puglisi

27.11.17

Igarapé na selva de pedra


Achei o último Igarapé no fundo do meu coração e nele lavei minha alma

Simone Sapienza Siss


A produção de um vídeo é o Exercício final proposto para a conclusão da disciplina Urbanismo e espaços públicos: interpretações e projeto, ministrada pelos professores Luis Guilherme Riviera de Castro e Igor Guattelli. Neste roteiro, serão elencados alguns tópicos da disciplina para embasar a proposta do vídeo, que irá registrar um percurso de uma série de espaços públicos no centro de São Paulo, com tempo de cinco minutos.

Mauro Caliari e o ato de flanar pelo espaço público, lugar de temporalidades distintas e sobrepostas. Fernando de Mello Franco e a visão transversal do território, conectando os pontos em busca de visão eficaz da política pública como indutora de qualidade de vida urbana. O rizoma de Guilles Deleuze e Félix Guattari e as Heterotopias Michel Foucault. No texto O Pêndulo de Foucault, Umberto Eco diz o seguinte:

Em primeiro lugar, a abundância de espelhos. Se há espelho, é estágio humano quereres ver-te nele. Mas nestes não te vês. Tu te procuras, buscas tua posição no espaço na qual o espelho te diga "estás aqui, e és tu mesmo", e acabas te danando todo, te aborrecendo, porque os espelhos de Lavoisier, sejam côncavos ou convexos, te desiludem, escarnecem de ti: arredando-te, tu te encontras, mas depois te deslocas e te perdes. Aquele teatro catóptrico fora disposto para tolher-te toda identidade e fazer com que te sintas inseguro de teu lugar. (...) E te sentes não apenas inseguro de ti mas igualmente dos objetos colocados entre ti e outro espelho.

Mas como ver a si mesmo? Ou antes: como se ver refletido no espaço público? Essa a questão inicial colocada por Foucault na Hermenêutica do Sujeito, e é a questão que Sócrates faz a Alcibíades: quais cuidados deve observar sobre si para que possa governar a cidade? Inversamente, olhar no espelho é ver o outro, o que está fora, uma o reverso de si mesmo. O ciclo seria então como a realização daquela certeza que, frente ao espelho existe apenas como reconhecimento da dúvida.

Então, no vídeo, a primeira cena aponta para um lugar que, se verá, de chegada, para o fim do vídeo; e a última cena, no lugar de chegada, observa-se o ponto inicial, onde tudo começou. Haveria, nesse sentido, uma consistência do início ao fim, bem como uma espécie de ritornelo, onde tudo pode ocorrer novamente, ainda que nada seja exatamente a mesma coisa.

O vídeo se dará em plano contínuo e irá enquadrar uma série de elementos urbanos e humanos justapostos. O percurso do vídeo demonstrará a relação cambiante entre estes elementos e suas propriedades topológicas, as quais constituem diferentes densidades e ritmos de um mesmo continuum de espaço público.

Sobre o áudio, a idéia é falar os nomes próprios dos elementos e discorrer sobe toponímias e afins conforme estes forem sendo filmados. Essas nominações seriam como os pontos que o plano contínuo do vídeo vai costurar, Connecting the dots. O percurso visual do vídeo, uma heterocronia, tanto mais vai variar em densidade e ritmo conforme varie o áudio agenciado: uma coisa é agenciar uma narração, outra é agenciar uma música, outra seria o vídeo mudo. Cada agenciamento específico vai gerar diferentes reverberações, como as ampli[ficções] de Carlos Marchi nas polikatéias de Atenas.

Desse modo os pontos são os seguintes: Cobertura do Condomínio Viadutos, Estadão Lanches, banca de Jornal, ponto de Ônibus, porta giratória de banco, calçada da Mithes Bernar, Viaduto Nove de Julho, parapeitos, pixação, Avenida 9 de Julho e Córrego Saracura, Viaduto Major Quedinho, Praça da Bandeira, Graffitti da Simone Siss, sinalizações, carros, praça, cruzamento, Rua Santo Anônio, Praça General Craveiro Lopes, Bar do Alemão, portão, porteiro, hall do prédio, lustre, elevador, câmera, terraço, mirante, banca de jornal.


22.11.17

Brevidade


Ouço tua voz gravada no celular. Poucos segundos. É uma pequena parte sua, de você, e cada pedacinho tem tanta graça! Ouço tua voz como quem volta para casa. Me pega de susto às avessas: o coração, ao invés de disparar, acalma. É noite alta, mas ouço sua voz e me assaltam poemas de rios que rumam ao interior longínquo, antes de voltar para o mar, noites frescas de cascatas, estar com você junto ao lago, noite quente, estrelada, todas essas cenas que inspiram água, espelho de ti no qual mergulho. Ouço tua voz e sinto tua língua, boca, nariz, o cheiro quente do teu corpo, tua respiração me anima, imaginá-la ofegante, me transformo em corvo, tenho vontade de voar até você, roubar presentes bonitos e brilhantes, ofertá-los aos seus pés, em seguida massageá-los, com mãos fortes e delicados toques. Tua voz me comove, em meio ao barulho das máquinas, poucos segundos, mas por hora aguardo o intervalo entre o cessar das engrenagens e a possibilidade de te ver, de olhos fechados, ouvindo mais uma vez a sua voz. A Lua em Peixes faz trino com Sol e Júpiter em Escorpião, e o silêncio encontra o sonho, em meio ao dia, no presente da sua voz, a vontade de te ver é uma delícia que a panela do tempo cozinha, ponho água no feijão.

original de 31 de outubro de 2017