25.3.17

Na escuridão da madrugada


Uma vez encontrei um mulek sentado encolhido,
Agachado chorando, agarrado às pernas num muro qualquer da Avenida Vergueiro.
Carregava meu violão, pousei-o ao lado, sentei com o mulek.
“Que aconteceu?”
Entre soluços, foi difícil entender exatamente,
Mas eu já conhecia o contexto, até por já ter andado por lá,
e a treta tinha sido feia naquela baixada, a boca da Muniz,
esse baixadão do Glicério, fazendo frente com Aclimação e Cambuci.
Seja lá quem fosse a família do mulek, ele saiu vazado.
Pode ter sido qualquer coisa, a polícia montando base forte, varrendo o local,
Ou uma cizânia interna na casa do mulek. Pareceu ser as duas coisas.
Fiquei sentado lá com o mulek um tempo, ouvindo ele chorar, soluçar.
Alguém passava e se importava, mas o que se vai fazer?
Levar o mulek pra casa?
Deixei ele na rua, dei meu celular pra ele,
ao invés de ser mais sincero e simplesmente dizer : sobreviva, eu não posso cuidar de você!
Mais tarde nessa noite meu celular tocou,
o guri que não lembro o nome queria falar com o amigo dele, Luciano,
chorando por ai na rua ele conseguiu, com outras pessoas, fazer uma ligação,
e a gente conversando com ele, imagino, deixou essa criança seguir à esmo



18.3.17

+ R$ 3,00


aquele pavio chamado vinte centavos

Cavalgando Nuvens


Espetáculo que integra a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo – MIT, ontem hoje e amanhã no SESC Vila Mariana. Um espetáculo fora de série, experiência ímpar.

Yasser e Rabih Mroué, irmãos, ator e diretor, uma câmera na mão. Imersão completa na vida do outro, daquele que se postra no palco e se mostra, desnudo, reinventado por si próprio. E nos mostra a estranheza das imagens capturadas pela câmera, o registro mnemônico da caixa preta, projetado em imagens fantásticas e sons reverberantes, esse ático que existe me cada cabeça – um tiro, uma sentença.

16.3.17

o Tempo não cessou


as minhas vitórias eu vou conquistando
em meio

às quedas
contusões
fracassos
errâncias
derrotas

as cicatrizes
e aquelas feridas que não fecham
(aquele segredinho sujo)

Eu me reergui
porque o jogo é jogado
o jogo da vida
até a hora da morte

Onde está a cura?
quando ocorrem as rupturas irreversíveis
as máculas que se arrastam
as feridas que não fecham

talvez a morte seja a última vitória
não restará nada
nem corpo nem alma

um vai depois
a outra vai primeiro

15.3.17

Conversar com o outro


15 de Março de 2017, São Paulo, 18:30h, início das comemorações de aniversário de 100 anos do curso de Arquitetura e 70 anos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Para dar início às festividades, Paulo Mendes da Rocha, o mais emérito estudante da casa, invocou um extraordinário banquete de celebração: como patrono e anfitrião, na cabeceira da mesa, Cristiano Stockler das Neves, fundador da Faculdade; à sua esquerda, Elisiário da Cunha Bahiana, autor do projeto do Viaduto do Chá, essa matriz de cidade, e da Casa Mapin com seu relógio, até hoje naquela esquina do Centro; à direita; Roberto Rossi Zuccolo, engenheiro calculista, pioneiro na utilização do concreto protendido; Pedro Corona, artista com obras expostas na Pinacoteca; Serafim Orlande, topógrafo, voltando o olhar para o caráter original da geomorfologia do sítio urbano. Com essas cinco pessoas, o tripé arte, ciência e técnica estaria erigido, ainda que um segundo grupo de festeiros tenha chegado depois: Plínio Croce, Fábio Moura Penteado e Alfredo Serafino Paesani (primeiro presidente do Sindicato de Arquitetos do Brasil), Carlos Millan e Eurico Prado Lopes. Fechou-se a roda com todas as pessoas presentes, amantes da arquitetura, da cidade e do design, tocou-se o talher na taça como um sino, e fez-se um brinde, saúde!

Paulo discorreu sobre o desígnio fundamental da cidade, de tornar o planeta e a natureza habitáveis, porque em si não o são, e o quanto, observando o quadro atual, a resposta a esse desafio foi imperfeita, problemática e incompleta. A política ai desponta como evidência material da forma e modo como se habita o espaço. Já Andrea Palladio dizia, há 400 anos, que a cidade era feita de monumentos, mas o que se fundava ali, no renascimento, era a monumentalidade da cidade. O mundo caberia na palma da mão, mas Galileu Galilei, que elucidou a mecânica celeste que possibilitaria as grandes navegações, foi mandado para a fogueira pela inquisição. Nesse contexto, da América contemporânea se formou, como novidade, entre sucessos e fracassos frente aos desafios da civilização.

Com uma pedra amarrada a um barbante, consigo explicar para uma criança sobre o efeito da gravidade. Ela gosta de brincar: prepara o barquinho para descer pela guia d’água; empina com destreza o papagaio no céu; depois usa o barbante para girar o pião. Mas ensina-se pras crianças muita inutilidade, como cortar corações de isopor, pintar de vermelho e ofertar no dia das Mães, assim como o português ofertou o espelho ao índio, sem explicar o mito de Narciso. Isso há pouco mais de 400 anos, a idade em que se fundou o experimento da América, parte de um fenômeno de colonização global que obliterou sociedades sofisticadas como incas e astecas. Também o ameríndio vivia em conformidade e integrado às matas, rios e tudo o mais; hoje o desmatamento da Amazônia é compensado à mea culpa nas cidades com parede verdes, solução pífia!

A dúvida sobre o que deve ser feito, uma abstração, é acompanhada sobre a mais absoluta certeza do que não deve ser feito. O elevador foi o dispositivo que possibilitou o advento do edifício vertical que caracteriza a cidade contemporânea, e é, na escala micro, o que outras infraestruturas metropolitanas – rede elétrica, telefonia, abastecimento de água, saneamento básico etc são na escala macro. Porém, seu uso irrestrito, propiciando outros edifícios verticais per se, tirando-se casinhas aqui e ali e em todo lugar, tem se mostrado parte de um equívoco desastrado, no qual o rés-do-chão raramente alcança a riqueza de térreos de quadra como no caso dos edifícios Copan e Conjunto Nacional.

Em que direção vamos nos juntar para discutir o futuro da nossa espécie em um planeta com sete bilhões de pessoas, e como pensar serenamente sobre a transformação da sexualidade na agenda mundial, questão que sempre esteve ai mas agora aparece com mais enlevo? Qual o conceito que temos de nós mesmos? Como se dá a formação da consciência e da linguagem? Porque a América Latina não tem ferrovias transversais, ligando os Oceanos Atlântico e Índico? Linhas transnacionais, amparando cidades e distribuindo as pessoas, e não mais criando a monstruosidade que é São Paulo, com seus 25 milhões de habitantes. Por que nossos rios não são navegáveis, como o Rhone na França e o Volkhov na Rússia? Ferrovias transnacionais trariam a Paz à América Latina, mas aqui em São Paulo foi mais fácil chamar o operário de baiano. E o colonizador começa a pagar pelos pecados, pela rapinagem, colonialismo predador do planeta que está nos levando à rota do desastre...

Para nós, a natureza não é paisagem; antes um conjunto de fenômenos: dinâmica dos fluidos, mecânica dos solo, estabilidade dos materiais. Enquanto indivíduos, somos muito breves, 90 anos; quando espécie, 4 milhões. Saber morrer é continuar. A disciplina como papel. A arquitetura é um saber peculiar, que possibilita várias aplicações: não só um pilar, janela, parede, cozinha, porta de entrada; mas cinema, teatro, literatura, sem confinar a atividade. Toda a cidade desastrada que ai se construiu não vai deixar de existir, sobre ela há de se ter um ímpeto criativo e inventivo. O conhecimento é um amplo espaço da notícia que se quer dar ao outro.


A existência, desde que nascemos, tem uma dimensão pública. Nada é mais privado do que a mente: posso estar pensando o diabo! Entretanto, tudo o que se forma é porque foi publicado, devidamente. O que seria da um Shakespeare se nunca saísse da gaveta? O pensamento, a música, o poema, a dança, se tornam espaço quando são publicados.

Qual a essência da cidade?


12.3.17

Devoto de Vênus


amante da Beleza
súdito da Paixão
anseio do Desejo

Astrosofia


ao mesmo tempo em que a Astronomia me mostra que a gente não é nada, nem um grão de poeira, nesse maravilhoso, terrível e imenso universo, a Astrologia me diz o contrário, que Eu sou o centro do universo sim, e esse arrumadinho sistema solar é a nossa casa, em meio a toda a agitação da cidade do cosmos

10.3.17

Gêmeos, Peixes


Leões

porque em mim habita uma alcatéia

Balão magenta


cruzou a rua quicando
devagar e feliz
levado pelo vento

livre leve e solto
atravessando a rua
nem viu o que o atropelou

9.3.17

Sete oitavas


o futuro é uma nota brave
a vida, um grito agudo

8.3.17

Dupla face



Foto: Guilherme Motta, 2017

Mural da Rita Wainer, em parceria com Acadêmicos do Baixo Augusta, Rua da Consolação, Fevereiro de 2017. Coincidência espontânea, ainda que auspiciosa, como se poderá verificar, o texto a seguir foi produzido hoje, 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, fruto de uma reflexão que matura já o tempo de uma lunação.

A primeira associação que fiz com essa obra foi a do sentimento nacionalista, que pode se dar mais em relação a um Estado, e mesmo a uma cidade, do que com uma Federação, questão de identidade a partir de fronteiras subjetivas, haja vista, inversamente, o sentimento cosmopolita, de sentir-se cidadã/ cidadão do mundo. Em seguida, a pintura pin-up do Vicente Caruso logo vêm a mente, e toda a história protagonizada pelo Estado de São Paulo em 1932. O triângulo equilátero, “Libertas Quae Sera Tamen”, reforça isso. E lá está a bandeira do Município, a Cruz da Ordem de Cristo alongada e o brasão da cidade, definido assim pela Lei nº 8.129 de 2 de outubro de 1974:

“Escudo português de goles, com um braço armado, destro, movente do flanco sinistro, empunhado um pendão de quatro pontas farpadas, ostentando uma cruz de goles, aberta em branco sobre si, da Ordem de Cristo, içada em haste lanceada em acha de armas, tudo de prata. Em cima o escudo, coroa mural de ouro, de oito torres, contendo em cada torre, três ameias, duas janelas e uma porta. Suporte: dois ramos de café de sua própria cor. Divisa: “NON DVCOR DVCO”, de goles, em um listão de prata”.


Vicente Caruso, 1954

Porém, logo entendi que é uma pintura carregada de ironia e ambiguidade. Afinal, os peixes de Piratininga estão lá, ainda que mais pareçam tubarões: há violência nas águas, mas, como diria Brecht, talvez mais ainda as margens que as comprimam. E há estrelas no céu, o punho erguido para o alto, o cetro é o Sol. For o ponto de vista do fundo do mar, veremos um corpo de bruços; do céu, um corpo de costas; em ambos os casos, Ofélia, boiando nas águas da noite de lua amarela. O muro pressupõe verticalidade, mas a água é fluxo que atravessa o horizonte. Por que(m) chora a lágrima que cai do olho da mulher? O cocar multicolorido, só não vê beleza na diversidade quem não quer. O cocar e a bandeira envelopam a mulher: bandeira de paz, mensagem de amor? João Dória Júnior, em entrevista com Bruna Lombardi em 29 de Março de 2016, disse o seguinte: "se nós pudéssemos contribuir para que a bandeira de São Paulo reproduzisse o sentimento da cidade, seguramente o símbolo seria um coração". Mas se há amor na mulher, sua expressão impávida não transparece: as garras pretas no braço de pele branca podem muito bem estar empunhando uma espada invisível, o vestido ninja e no traço de mangá. Aliás, A CIDADE É NOSSA e tudo que é preto invisível gravado no branco da bandeira de cruz vermelha, os rios e periferias invisíveis de xilogravura e literatura de Cordel.

7.3.17

Hacker


se um dia me tornar
será para acentuar
palavras proibidas

Saturno em Libra


tem um pixo que chama
OS + IMUNDOS

Os mais fodidos
pura treta

mas tão bonito
no Signo de Vênus

Jaula


dizem por ai
que o leão na selva
anda livre
tal qual gatos no telhado

mas não seriam esses
somente
seus ambientes naturais?
Felinas alcatéias 

Safaris urbanos
Reservas indígenas
Redutos quilombolas

à civilização agrada
domesticar
sua ancestralidade

5.3.17

Os gatos são líquidos


Pensei em você
uma cena forte
olhei para fora

o Céu branco e negro
nuvem carregada de chuva

3.3.17

Hipotenusa


contrária à norma
flutuava leve
linda e solta

hipopótamo
estranha musa

1.3.17

Peixes


Bloco de Rua
Rios de gente
no Carnaval viramos