MEMORIAL DE
TRAJETÓRIA NA GRADUAÇÃO
Breve Semântica
“Ninguém escreve um
diário para dizer quem é”
José Saramago, Cadernos
de Lanzarote
Gosto muito de
astrologia, no meu mapa natal, que registra a posição dos astros no momento do
meu nascimento, Saturno está lá, na Casa XI do Céu diurno, exaltado no signo de
Libra, o Senhor do Tempo e a Deusa da Balança, equilibrar os pratos é ato
contínuo, longo é o caminho e longa é a jornada, e agora, ao pensar e refletir
na minha trajetória na graduação – do ensino superior, me remete essa memória
ancestral, e mesmo que construída em retrospectiva, do momento do meu
nascimento, e não tardou muito quando eu cursava a oitava e última séria do
ensino ginasial, na Escola Municipal de Primeiro Grau Presidente João Pinheiro,
no bairro da Vila Matilde, Zona Leste do Município de São Paulo, onde minha mãe
era professora, mas isso é outra história, e ouço colegas comentando sobre
vestibulinhos e cursos de escolas técnicas, algo que eu nunca tinha ouvido
falar, e lá fui eu no período vespertino do último semestre do ginásio cursar o
CECA Vestibulares na Rua São Bento, foi uma fase horrorosa da minha vida, pois sofri
muito bullying, e penso agora que esse é um trauma subliminar e inconsciente
que carrego comigo, de adentrar uma nova coletividade e ser atormentado, ontem
mesmo em uma disciplina que ministro, conheci uma aluna que me lembrou uma
menina bonita que simpatizou comigo no começo do cursinho, depois sem chance,
agora sou professor e com idade para ser o pai dela, espiral do tempo, e
ingressar no ano seguinte na Escola Técnica Federal de São Paulo, no bairro do
Canindé, Zona Norte da cidade, no curso integrado do colegial com técnico em
Edificações, não facilitou as coisas, a sensação que eu tinha era de ter
passado diretamente do ginásio para o ensino superior, em termos do que eu
entendia ser o ensino colegial e via meus amigos da Vila Matilde ingressando nas
escolas estaduais da própria região, e na Federal, por outro lado, havia essa
espécie de espírito cosmopolita, que congregava jovens de regiões diversas da
cidade, e o campo de imanência que se desvelava, hoje eu sei, na infraestrutura
de um campus universitário projetado por Candido Malta Campos, era de um
território de disputas das mais diversas, entre os vários cursos, sendo que
mecânica, eletrônica e processamento de dados eram como que os carros-chefe e
edificações o primo pobre, nas disputas dos vários grupos que se formavam
dentro do próprio curso, as chamadas panelas, e entre alunos e alunas e
professores e professoras, para além da batalha campal de conteúdos e
competências que íamos adquirindo, e vou ressaltar que, mesmo sendo uma época
em que conheci muita gente aprendi muita coisa, eu sentia também uma terrível
solidão, em parte por ter desenvolvido uma certa timidez, mas que hoje entendo
como um caráter de reserva que faz parte da minha personalidade, se volto ao
meu mapa natal sei que sou aquele Júpiter disposto por Marte em Escorpião na
Casa XII, entre o claustro e a coletividade sou esse corpo sútil que se desloca
sob o Sol do Conhecimento que dispõe Lua e Vênus, e assim eu ingresso no
Bacharelado em Artes Plásticas da Universidade Estadual Paulista Júlio de
Mesquita Filho, UNESP, Campus de São Paulo, no Instituto de Artes no bairro do
Ipiranga, uma experiência absolutamente maravilhosa que eu tive na minha vida,
independente dos momentos ruins, um período de tantas experiências
enriquecedoras e histórias que me acalentam a memória, as quais, por incrível
que pareça, não cabe relatar aqui, vou me limitar a dizer que “tirei de letra”,
e já uma outra situação, mais ambivalente se deu quando comecei a cursar,
concomitantemente, o curso de Arquitetura e Urbanismo na Universidade
Presbiteriana Mackenzie, uma instituição privada cristã onde percorri uma longa
trajetória de trabalho e pós-graduação, e cuja estrutura do curso e perfil das
pessoas era tão diferente da UNESP que chegava a ser engraçada essa e tantas
nuances que eu fui notando e refletindo, de uma perspectiva peripatética, Mercúrio
em Virgem no alto do meu Céu natal não me deixa mentir, e eu fui me tornando um
arquiteto e urbanista e aprendendo a trabalhar em equipe, mas vou confessar uma
situação traumática que se transformou em uma espécie de sonho recorrente que
tenho, às vezes, por conta de um gatilho que ainda não identifiquei qual é, o
sonho de que falta uma disciplina para eu me formar, a qual eu não estou
frequentando e também não consigo vê-la direito na grade e entender o porquê...
“É preciso viver a
própria existência como algo de unitário e verdadeiro, mas também como um
paradoxo: obedecer para subsistir, mas resistir para poder pensar o futuro,
assim a existência torna-se produtora da sua própria pedagogia”
Milton Santos, Por uma
outra globalização – do pensamento único à consciência universal
1ª Avaliação – Manuscrito histórico:
reflexões analíticas sobre a fonte produzida pelo estudante (sujeito) por meio
da bibliografia da disciplina
“Acordar para quem você é requer desapego de quem você
imagina ser”
Alan Watts
[Instrução inicial: os trechos
marcados com o símbolo textual de chaves [ ] excedem as regras da avaliação e
devem ser desconsiderados por ferirem a regra 5, porém não foram omitidos
porque adentraram organicamente/ naturalmente/ sem aviso prévio na composição
dessa reflexão. Ademais, em se havendo contribuição científica, ainda que
minimamente modesta, para o debate que se anuncia, uma vez atendidas as
condições iniciais das regras 1 a 4, tendo a discordar da regra 5. Indo mais a
fundo, tal regra seria contraditória e, portanto, inválida mediante a
cronologia dos fatos, uma vez que não foi dada quando da redação da Manuscrita,
a qual já trás referências externas à bibliografia oficial (SARAMAGO, 1997;
SANTOS, 2001). Complemento afirmando ainda que não há prejuízo semântico na
supressão dos textos em chaves para o objetivo da avaliação.]
Em se tratando de uma disciplina em
História da Educação, esta diretiva tem por necessidade relacionar o
conhecimento almejado, na disciplina, de memórias não só pessoais, mas,
sobretudo, coletivas, permitindo-me a mim mesmo compreender-me não só como
sujeito histórico, mas como protagonista da minha própria jornada. Por esse
motivo, mas não somente, mergulho diretamente no conteúdo da disciplina e nas
relações diretas e indiretas que este conteúdo estabelece com o que foi
relatado na Manuscrita histórica.
Marilena Chauí e Demerval Saviani
podem ser considerados os principais teóricos de uma matriz nacional de
pensamento materialista-dialético e histórico-cultural, e que tem em comum a
visão da educação como prática social de democratização do saber. Saviani, por
um lado, tece considerações acerca de uma tomada de consciência, pelo sujeito,
do tempo como processo de transformação da realidade:
“Em visão retrospectiva, é possível
constatar que a História só se pôs como um problema para o homem, isto é, só
emergiu como algo que precisava ser compreendido e explicado, a partir da época
moderna (...) A natureza passa, assim, a ser entendida como matéria-prima das
transformações que os homens operam no tempo. E a visão do tempo deixa de ser
cíclica, caracterizando-se agora por uma linha progressiva que se projeta para
a frente, ligando o passado ao futuro por meio do presente. Surge aí a questão
de se compreender a causa, o significado e a direção das transformações. A
História emerge, pois, como um problema não apenas prático, mas também teórico.
O homem, além de um ser histórico, busca agora apropriar-se da sua
historicidade. Além de fazer história, aspira a se tornar consciente dessa sua
identidade”. (2006, p.7-8)
[Minha formação filosófica inclui
pensadores como Friedrich Nietzche (1883), Vilém Flusser (1985), Bruno Latour
(1994), Guilles Deleuze e Felix Guattari (1995). Considerando isso], tendo a
discordar parcialmente de Saviani quanto à linearidade do tempo e da própria
visão da modernidade mais como um fato do que como ideologia hegemônica. Porém,
entendo que as figuras conceituais da espiral do tempo e do rizoma enquanto
rede de relações neurais mas também afetivas reforçam a abordagem da História
como problema, sobretudo, empírico. Isso vai de encontro com o pensamento de
Jacques Verger quando afirma:
“Uma das grandes originalidades da
civilização medieval, em matéria de educação, foi sem dúvida o facto de haver
constituído, desde o século XI até o século XV, através de todo o Ocidente, uma
sólida rede de escolas no exacto sentido do termo. Se entre todas essas escolas
existia evidentemente a maior diversidade, todas elas se nos apresentam como
tendo tido em comum o facto de serem instituições de que podem definir-se mais
ou menos rigorosamente a organização, os programas, os métodos e o
recrutamento. Modificada, amputada, completada, é esta rede medieval que se
encontra, sem solução de continuidade, na origem da geografia e da organização
escolares da Europa moderna e contemporânea. O estudo das escolas da Idade
Média merece pois ser feito”. (198-?, p. 261)
Ora, se a medievalidade é a origem da
modernidade e, ainda, da Europa contemporânea, a questão poderia ser posta
assim: ela deixou de ser medieval e/ ou continua sendo? E em caso positivo,
qual o real sentido em se estabelecer os cortes moderno e contemporâneo? Talvez
tudo não passe de ideologias... Mas vale ressaltar que essa diversidade de
instituições e a factibilidade de sua análise coincide com a Manuscrita na
descrição de diferentes instituições ao longo de um grande processo de
graduação. De todo modo, Saviani aponta ainda uma lacuna importante nesse campo
de conhecimento e que pode direcionar pesquisas futuras na área, qual seja:
“Mas, a essencialidade do tempo como
algo inerente ao trabalho pedagógico que define o curso (o currículo) da ação
educativa determinando o grau em que os objetivos da prática pedagógica podem
ou não ser atingidos, isto não tem sido objeto de maior atenção investigativa”.
(2000, p. 2)
Já Chauí coloca o debate na luta
entre a autonomia de pensamento e o Capital, [dialogando diretamente com a obra
de Milton Santos, a qual citada ao final da Manuscrita. De maneira similar, ao
fim do seu texto, Chauí] faz a seguinte recomendação:
“Adotar uma perspectiva crítica muito
clara tanto sobre a idéia de sociedade do conhecimento quanto sobre a de
educação permanente, tidas como idéias novas e diretrizes para a mudança
da universidade pela perspectiva da modernização. É preciso tomar a
universidade do ponto de vista de sua autonomia e de sua expressão social e
política, cuidando para não correr em busca da sempiterna idéia de modernização
que, no Brasil, como se sabe, sempre significa submeter a sociedade em geral e
as universidades públicas, em particular, a modelos, critérios e interesses que
servem ao capital e não aos direitos dos cidadãos”. (2003, p. 15)
[Considerando que o despertar da
consciência passa pela valorização da memória e de reverenciar a própria
ancestralidade, um fato curioso articula as visitas orientadas ao Centro de
Memória do IFSP, em 07/03/2026, com Alba Fernanda Oliveira Brito, e ao Museu
Afro, em 14/03/2026, com Daniel Filipe Soares Souza, autor do documentário
Quilombo de Fronteira (2025). Ocorre que na Manuscrita eu havia afirmado que o
Campus de São Paulo do IFSP havia sido projetado por Candido Malta Campos, o
que foi contradito por Brito na visita, a qual afirmou que o projeto era de
Zenon Lotufo. Na ocasião, logo após a visita, procurei alguma evidência que resolvesse
o mal-entendido, mas não encontrei, nem mesmo em pesquisa sobre o assunto em
Brito e Boschini (2021). Somente hoje, ao escrever o texto, encontrei a
confirmação do projeto de Zenon Lotufo e equipes, não somente para o Campus São
Paulo, como também para o Palácio das Nações, hoje Museu Afro (FILHO, 2019). O
que leva à recomendação de atualização da própria pesquisa de Brito e Boschini,
quando de uma próxima revisão.]
Por fim, gostaria de concluir observando
que o processo de graduação descrito na Manuscrita tratou, diretamente, de uma
formação técnica e de bacharelado, não envolvendo aspectos empíricos relativos
às licenciaturas. De modo que ter tomado contato com a bibliografia oficial da
disciplina de História da Educação Superior me possibilitou ter um novo olhar
sobre minha própria trajetória. Mais ainda, parafraseando Chauí e Cavalcante (2012,
p. 57), olhar de uma nova perspectiva para as complexas corporações que são as
instituições de ensino superior.
REFERÊNCIAS
[BRITO, A. F. O.; BOSCHINI, F. F.. Ensaio
sobre arquitetura escolar e currículo - uma relação tardia para a educação
profissional na rede federal em São Paulo. In: BRITO, A. F. O.; BOSCHINI, F.
F.. Patrimônio Educativo – Arquitetura Escolar e Currículo. São Paulo: Paco Editorial, 2021, p. 74-91.]
CAVALCANTE, T. M.. A virtude da
amizade na suma de teologia de Tomás de Aquino (séc. XIII): uma possibilidade
de prática educativa? Tese de doutorado, Universidade Estadual de Maringá,
Programa de Pós-Graduação em Educação, 2012.
CHAUI, M.. A universidade pública sob
nova perspectiva. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 24,
p. 5-15, set./dez. 2003.
[DELEUZE, G.; GUATTARI, F.. Mil
Platôs. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.]
[FILHO, E. M.. Zenon Lotufo: Da
tradição clássica a produção moderna. Vitruvius, Arquitetxtos 224.00
história, ano 19, jan. 2019.]
[LATOUR, B.. Jamais fomos modernos.
Rio de Janeiro: Editora 34, 1994.]
[NIETZCHE. F.. Assim falava
Zaratustra. EbooksBrasil.org, (2002) 1883.]
VERGER, J.. Universidades e escolas
medievais do final do século XI ao final do século XV. In: MIALARET, G.; VIAL,
J. (dir.). História Mundial da Educação. Vol.1 - das origens a 1515.
Porto (Portugal): RES. [198-?], p. 261-288.
[SANTOS, M.. Por uma outra
globalização: do pensamento único à consciência universal. São Paulo:
Editora Record, 2001.]
[SARAMAGO, J.. Cadernos de
Lanzarote. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.]
SAVIANI, D.. Sobre a especificidade
do objeto da história da educação. Revista Online da Biblioteca Prof. Joel
Martins, Campinas, SP, vol. 1, nº 3, jun. 2000.
SAVIANI, D.. O Debate teórico e
metodológico no campo da história e sua importância para a pesquisa
educacional. In: SAVIANI, D.; LOMBARDI, J. C.; SANFELICE, J. L. (Orgs.). História
e história da educação: o debate teórico-metodológico atual. 3ª ed.
Campinas, SP: Autores Associados: HISTEDBR, 2006, p. 7-15.
