13.5.26

Presença Efêmera - P(l)ano de Fundo


MEMORIAL DE TRAJETÓRIA NA GRADUAÇÃO

Breve Semântica

“Ninguém escreve um diário para dizer quem é”

José Saramago, Cadernos de Lanzarote

Gosto muito de astrologia, no meu mapa natal, que registra a posição dos astros no momento do meu nascimento, Saturno está lá, na Casa XI do Céu diurno, exaltado no signo de Libra, o Senhor do Tempo e a Deusa da Balança, equilibrar os pratos é ato contínuo, longo é o caminho e longa é a jornada, e agora, ao pensar e refletir na minha trajetória na graduação – do ensino superior, me remete essa memória ancestral, e mesmo que construída em retrospectiva, do momento do meu nascimento, e não tardou muito quando eu cursava a oitava e última séria do ensino ginasial, na Escola Municipal de Primeiro Grau Presidente João Pinheiro, no bairro da Vila Matilde, Zona Leste do Município de São Paulo, onde minha mãe era professora, mas isso é outra história, e ouço colegas comentando sobre vestibulinhos e cursos de escolas técnicas, algo que eu nunca tinha ouvido falar, e lá fui eu no período vespertino do último semestre do ginásio cursar o CECA Vestibulares na Rua São Bento, foi uma fase horrorosa da minha vida, pois sofri muito bullying, e penso agora que esse é um trauma subliminar e inconsciente que carrego comigo, de adentrar uma nova coletividade e ser atormentado, ontem mesmo em uma disciplina que ministro, conheci uma aluna que me lembrou uma menina bonita que simpatizou comigo no começo do cursinho, depois sem chance, agora sou professor e com idade para ser o pai dela, espiral do tempo, e ingressar no ano seguinte na Escola Técnica Federal de São Paulo, no bairro do Canindé, Zona Norte da cidade, no curso integrado do colegial com técnico em Edificações, não facilitou as coisas, a sensação que eu tinha era de ter passado diretamente do ginásio para o ensino superior, em termos do que eu entendia ser o ensino colegial e via meus amigos da Vila Matilde ingressando nas escolas estaduais da própria região, e na Federal, por outro lado, havia essa espécie de espírito cosmopolita, que congregava jovens de regiões diversas da cidade, e o campo de imanência que se desvelava, hoje eu sei, na infraestrutura de um campus universitário projetado por Candido Malta Campos, era de um território de disputas das mais diversas, entre os vários cursos, sendo que mecânica, eletrônica e processamento de dados eram como que os carros-chefe e edificações o primo pobre, nas disputas dos vários grupos que se formavam dentro do próprio curso, as chamadas panelas, e entre alunos e alunas e professores e professoras, para além da batalha campal de conteúdos e competências que íamos adquirindo, e vou ressaltar que, mesmo sendo uma época em que conheci muita gente aprendi muita coisa, eu sentia também uma terrível solidão, em parte por ter desenvolvido uma certa timidez, mas que hoje entendo como um caráter de reserva que faz parte da minha personalidade, se volto ao meu mapa natal sei que sou aquele Júpiter disposto por Marte em Escorpião na Casa XII, entre o claustro e a coletividade sou esse corpo sútil que se desloca sob o Sol do Conhecimento que dispõe Lua e Vênus, e assim eu ingresso no Bacharelado em Artes Plásticas da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, UNESP, Campus de São Paulo, no Instituto de Artes no bairro do Ipiranga, uma experiência absolutamente maravilhosa que eu tive na minha vida, independente dos momentos ruins, um período de tantas experiências enriquecedoras e histórias que me acalentam a memória, as quais, por incrível que pareça, não cabe relatar aqui, vou me limitar a dizer que “tirei de letra”, e já uma outra situação, mais ambivalente se deu quando comecei a cursar, concomitantemente, o curso de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie, uma instituição privada cristã onde percorri uma longa trajetória de trabalho e pós-graduação, e cuja estrutura do curso e perfil das pessoas era tão diferente da UNESP que chegava a ser engraçada essa e tantas nuances que eu fui notando e refletindo, de uma perspectiva peripatética, Mercúrio em Virgem no alto do meu Céu natal não me deixa mentir, e eu fui me tornando um arquiteto e urbanista e aprendendo a trabalhar em equipe, mas vou confessar uma situação traumática que se transformou em uma espécie de sonho recorrente que tenho, às vezes, por conta de um gatilho que ainda não identifiquei qual é, o sonho de que falta uma disciplina para eu me formar, a qual eu não estou frequentando e também não consigo vê-la direito na grade e entender o porquê...

“É preciso viver a própria existência como algo de unitário e verdadeiro, mas também como um paradoxo: obedecer para subsistir, mas resistir para poder pensar o futuro, assim a existência torna-se produtora da sua própria pedagogia”

Milton Santos, Por uma outra globalização – do pensamento único à consciência universal


1ª Avaliação – Manuscrito histórico: reflexões analíticas sobre a fonte produzida pelo estudante (sujeito) por meio da bibliografia da disciplina

“Acordar para quem você é requer desapego de quem você imagina ser”

Alan Watts

[Instrução inicial: os trechos marcados com o símbolo textual de chaves [ ] excedem as regras da avaliação e devem ser desconsiderados por ferirem a regra 5, porém não foram omitidos porque adentraram organicamente/ naturalmente/ sem aviso prévio na composição dessa reflexão. Ademais, em se havendo contribuição científica, ainda que minimamente modesta, para o debate que se anuncia, uma vez atendidas as condições iniciais das regras 1 a 4, tendo a discordar da regra 5. Indo mais a fundo, tal regra seria contraditória e, portanto, inválida mediante a cronologia dos fatos, uma vez que não foi dada quando da redação da Manuscrita, a qual já trás referências externas à bibliografia oficial (SARAMAGO, 1997; SANTOS, 2001). Complemento afirmando ainda que não há prejuízo semântico na supressão dos textos em chaves para o objetivo da avaliação.]

Em se tratando de uma disciplina em História da Educação, esta diretiva tem por necessidade relacionar o conhecimento almejado, na disciplina, de memórias não só pessoais, mas, sobretudo, coletivas, permitindo-me a mim mesmo compreender-me não só como sujeito histórico, mas como protagonista da minha própria jornada. Por esse motivo, mas não somente, mergulho diretamente no conteúdo da disciplina e nas relações diretas e indiretas que este conteúdo estabelece com o que foi relatado na Manuscrita histórica.

Marilena Chauí e Demerval Saviani podem ser considerados os principais teóricos de uma matriz nacional de pensamento materialista-dialético e histórico-cultural, e que tem em comum a visão da educação como prática social de democratização do saber. Saviani, por um lado, tece considerações acerca de uma tomada de consciência, pelo sujeito, do tempo como processo de transformação da realidade:

“Em visão retrospectiva, é possível constatar que a História só se pôs como um problema para o homem, isto é, só emergiu como algo que precisava ser compreendido e explicado, a partir da época moderna (...) A natureza passa, assim, a ser entendida como matéria-prima das transformações que os homens operam no tempo. E a visão do tempo deixa de ser cíclica, caracterizando-se agora por uma linha progressiva que se projeta para a frente, ligando o passado ao futuro por meio do presente. Surge aí a questão de se compreender a causa, o significado e a direção das transformações. A História emerge, pois, como um problema não apenas prático, mas também teórico. O homem, além de um ser histórico, busca agora apropriar-se da sua historicidade. Além de fazer história, aspira a se tornar consciente dessa sua identidade”. (2006, p.7-8)

[Minha formação filosófica inclui pensadores como Friedrich Nietzche (1883), Vilém Flusser (1985), Bruno Latour (1994), Guilles Deleuze e Felix Guattari (1995). Considerando isso], tendo a discordar parcialmente de Saviani quanto à linearidade do tempo e da própria visão da modernidade mais como um fato do que como ideologia hegemônica. Porém, entendo que as figuras conceituais da espiral do tempo e do rizoma enquanto rede de relações neurais mas também afetivas reforçam a abordagem da História como problema, sobretudo, empírico. Isso vai de encontro com o pensamento de Jacques Verger quando afirma:

“Uma das grandes originalidades da civilização medieval, em matéria de educação, foi sem dúvida o facto de haver constituído, desde o século XI até o século XV, através de todo o Ocidente, uma sólida rede de escolas no exacto sentido do termo. Se entre todas essas escolas existia evidentemente a maior diversidade, todas elas se nos apresentam como tendo tido em comum o facto de serem instituições de que podem definir-se mais ou menos rigorosamente a organização, os programas, os métodos e o recrutamento. Modificada, amputada, completada, é esta rede medieval que se encontra, sem solução de continuidade, na origem da geografia e da organização escolares da Europa moderna e contemporânea. O estudo das escolas da Idade Média merece pois ser feito”. (198-?, p. 261)

Ora, se a medievalidade é a origem da modernidade e, ainda, da Europa contemporânea, a questão poderia ser posta assim: ela deixou de ser medieval e/ ou continua sendo? E em caso positivo, qual o real sentido em se estabelecer os cortes moderno e contemporâneo? Talvez tudo não passe de ideologias... Mas vale ressaltar que essa diversidade de instituições e a factibilidade de sua análise coincide com a Manuscrita na descrição de diferentes instituições ao longo de um grande processo de graduação. De todo modo, Saviani aponta ainda uma lacuna importante nesse campo de conhecimento e que pode direcionar pesquisas futuras na área, qual seja:

“Mas, a essencialidade do tempo como algo inerente ao trabalho pedagógico que define o curso (o currículo) da ação educativa determinando o grau em que os objetivos da prática pedagógica podem ou não ser atingidos, isto não tem sido objeto de maior atenção investigativa”. (2000, p. 2)

Já Chauí coloca o debate na luta entre a autonomia de pensamento e o Capital, [dialogando diretamente com a obra de Milton Santos, a qual citada ao final da Manuscrita. De maneira similar, ao fim do seu texto, Chauí] faz a seguinte recomendação:

“Adotar uma perspectiva crítica muito clara tanto sobre a idéia de sociedade do conhecimento quanto sobre a de educação permanente, tidas como idéias novas e diretrizes para a mudança da universidade pela perspectiva da modernização. É preciso tomar a universidade do ponto de vista de sua autonomia e de sua expressão social e política, cuidando para não correr em busca da sempiterna idéia de modernização que, no Brasil, como se sabe, sempre significa submeter a sociedade em geral e as universidades públicas, em particular, a modelos, critérios e interesses que servem ao capital e não aos direitos dos cidadãos”. (2003, p. 15)

[Considerando que o despertar da consciência passa pela valorização da memória e de reverenciar a própria ancestralidade, um fato curioso articula as visitas orientadas ao Centro de Memória do IFSP, em 07/03/2026, com Alba Fernanda Oliveira Brito, e ao Museu Afro, em 14/03/2026, com Daniel Filipe Soares Souza, autor do documentário Quilombo de Fronteira (2025). Ocorre que na Manuscrita eu havia afirmado que o Campus de São Paulo do IFSP havia sido projetado por Candido Malta Campos, o que foi contradito por Brito na visita, a qual afirmou que o projeto era de Zenon Lotufo. Na ocasião, logo após a visita, procurei alguma evidência que resolvesse o mal-entendido, mas não encontrei, nem mesmo em pesquisa sobre o assunto em Brito e Boschini (2021). Somente hoje, ao escrever o texto, encontrei a confirmação do projeto de Zenon Lotufo e equipes, não somente para o Campus São Paulo, como também para o Palácio das Nações, hoje Museu Afro (FILHO, 2019). O que leva à recomendação de atualização da própria pesquisa de Brito e Boschini, quando de uma próxima revisão.]

Por fim, gostaria de concluir observando que o processo de graduação descrito na Manuscrita tratou, diretamente, de uma formação técnica e de bacharelado, não envolvendo aspectos empíricos relativos às licenciaturas. De modo que ter tomado contato com a bibliografia oficial da disciplina de História da Educação Superior me possibilitou ter um novo olhar sobre minha própria trajetória. Mais ainda, parafraseando Chauí e Cavalcante (2012, p. 57), olhar de uma nova perspectiva para as complexas corporações que são as instituições de ensino superior.

REFERÊNCIAS

[BRITO, A. F. O.; BOSCHINI, F. F.. Ensaio sobre arquitetura escolar e currículo - uma relação tardia para a educação profissional na rede federal em São Paulo. In: BRITO, A. F. O.; BOSCHINI, F. F.. Patrimônio Educativo – Arquitetura Escolar e Currículo.  São Paulo: Paco Editorial, 2021, p. 74-91.]

CAVALCANTE, T. M.. A virtude da amizade na suma de teologia de Tomás de Aquino (séc. XIII): uma possibilidade de prática educativa? Tese de doutorado, Universidade Estadual de Maringá, Programa de Pós-Graduação em Educação, 2012.

CHAUI, M.. A universidade pública sob nova perspectiva. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 24, p. 5-15, set./dez. 2003.

[DELEUZE, G.; GUATTARI, F.. Mil Platôs. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.]

[FILHO, E. M.. Zenon Lotufo: Da tradição clássica a produção moderna. Vitruvius, Arquitetxtos 224.00 história, ano 19, jan. 2019.]

[LATOUR, B.. Jamais fomos modernos. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994.]

[NIETZCHE. F.. Assim falava Zaratustra. EbooksBrasil.org, (2002) 1883.]

VERGER, J.. Universidades e escolas medievais do final do século XI ao final do século XV. In: MIALARET, G.; VIAL, J. (dir.). História Mundial da Educação. Vol.1 - das origens a 1515. Porto (Portugal): RES. [198-?], p. 261-288.

[SANTOS, M.. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. São Paulo: Editora Record, 2001.]

[SARAMAGO, J.. Cadernos de Lanzarote. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.]

SAVIANI, D.. Sobre a especificidade do objeto da história da educação. Revista Online da Biblioteca Prof. Joel Martins, Campinas, SP, vol. 1, nº 3, jun. 2000.

SAVIANI, D.. O Debate teórico e metodológico no campo da história e sua importância para a pesquisa educacional. In: SAVIANI, D.; LOMBARDI, J. C.; SANFELICE, J. L. (Orgs.). História e história da educação: o debate teórico-metodológico atual. 3ª ed. Campinas, SP: Autores Associados: HISTEDBR, 2006, p. 7-15.

 

20.4.26

Malditos sejam


Se divertem em fazer de nós títeres

com seus pequenos poderes

pobre daqueles


11.4.26

Terror nenhum


 O Capitalismo já ruiu

Só a gente que ainda não viu

As estrelas nascem de dentro


Para Sucateiro e Cia


10.4.26

Sobre o ato de escrever


 pode ser que eu tenha vontade de dizer:
me importunaram sexualmente
me apaixonei por alguém
estou alegre
estou triste
ontem vi um colibri

para Tatyana Murer Cavalcante

6.4.26

Páscoa tardia


 Não era apenas um detalhe
Era uma parte da identidade

Dela

Para 信子