2.1.16

do amor cortês ao amor intergalático


não que o encontro seja impossível
é só que cada um vive simplesmente

em um planeta distinto

São Paulo - SP


Selva de Pedra

Nós somos água

Piratininga miséria
Esquálida fortuna

1.1.16

Sussuarana


Nome de serpente
rabo de onça

ataque fatal
pescoço no dente

Pesada felina
fome intensa

Finalmente
Tocaia de amor

Humildade




Ponderar palavras
Temperar alimentos
Molhar a terra

cavalo caído no fim da noite
fênix voa leve no sol da manhã

30.12.15

resenha de Centauro




Monforte, tal qual esfinge, aquele Exu Egípcio, devir de encruzilhada, me propôs um desafio, talvez um enigma. Ou, antes, um exercício de reflexão, a partir da escultura Cavalo, de Vanderlei Lopes (2014), e do filme Andrej Rublev, de Andrej Tarkovsky (1966). Ocorre que a escultura do primeiro parece ter como referência a cena introdutória do segundo, onde um monge, após trepar num balão, contra a descrença, omissão e incredulidade da geral, sai voando desembestado, vendo o mundo por cima. Um vôo primitivo, de formas grotescamente cartográficas, mas que termina em queda, invariavelmente. Então o que se vê não é um destroço de gênero humano, mas sim um cavalo em posição pouco comum, deitado de costas, como a coçá-las, preguiçosamente espreguiçando-se. Macunaíma do Oriente. Na sequência, o monge caído jaz zonzo, junto ao expressivo balão que, murchando nos panos costurados, oscila um desabafo inevitável, tal qual uma baleia Caxalote Frankstein que encalhasse na praia.

Daí começam os oito contos do monge que, jogado ao mundo secular, perdeu a fé, e, por 16 anos, faz voto de silêncio. Manteve-se irrevogável de prostrar som com a boca até que uma “iluminação”, expressa no gongo de um sino duramente escupido, pusesse algum sentido em suas idéias. Do primeiro conto, O Bobo da Corte, como a carta 0 Le Fou do Tarot de Marselha, até o 8º, O Sino, como a carta XX Le Jugement, ou o filme homônimo, Primavera Verão Outono Inverno Primavera, de Kim Ki-duk (2003), adentramos a festa divina expressa na experiência humana das frestas, parafraseando Luiz Antonio Simas, cheias até o talo de sofrimentos da carne e perseverança do Espírito, por assim dizer. “Não se samba porque a vida é mole. Se samba porque a vida é dura".

Para Tarkovsky, a vida de Rublev poderia ser definida a partir de uma epígrafe, parte de um diálogo entre mestre e discípulo registrado no romance O Jogo das Côntas de Vidro, de autoria de Herman Hesse (p. 57): “A verdade é vivida, e não ensinada teoricamente. Prepara-te para as lutas, José Servo. Estou vendo que elas já principiaram”.