11.12.09

Lembranças do cárcere


Uma vez quando era bem pequeno,
Três anos no máximo,
Estava a sós com uma mulher que cuidava da casa,
Carmelita!

E eis que a cuja,
Não sei por que cargas d’água,
Me tranca no quarto de janelas fechadas,
Em plena tarde ensolarada.

Pra mim, um cototó branquelinho,
de óculos e cabelos pixaim enroladinho,
era inconcebível, por exemplo,
acender a luz do quarto em plena tarde ensolarada.

Estava preso enton,
Sufocado num quarto escuro com frestas de luz dourada.
Gritei, chorei, esperneei, caguei no chão, pisei e andei,
A dita cuja nada!

Foi minha primeira solitária.

Outra vez, já adolescente pródigo,
Me vi cercado por um banheiro escuro,
Num hotel de fim de mundo,
Um pé de chinelo liso e tinha acabado a cocaína.

Essa foi minha segunda solitária.

Já a terceira não é minha,
mas sei que ocorreu, ocorre o ocorrerá,
potencialmente a todos que andam por entre
o dança entre o bem e o mal.

Pois lá está ele, o velho revolucionário,
O mártir desavisado,
O engajado herói,
Mesmo os piores assassinos e ladrões.

O corpo fechado.


10.12.09

O suicida tragicômico


Tomou vitamina C em grandes quantidades,
Doses quiméricas,
Achando ser remédio tarja preta,
Ou antidepressivo.

Queria mesmo o fim pelo meio e,
Em vez de morrer,
Sarou de tal gripe de amor,
Que ao final deu até um sorriso.

Dilema de um Onívoro


“Olha lá a plantinha nascendo na calçada, coisa linda!”
Vai o outro e chuta.

Tenho dó da plantinha que se foi,
Mas esqueço dos boizinho, das vaquinha, dos bezerrinho,
das galinha, dos franguinho, dos peixinho...
Dá um grito! Vira os olhos, a língua também,
Baba sangue,
Que têm que sangrar direitinho,
tirar as tripa tudinho, sangrar bem direitinho,
lavar até o cuzinho, de de dentro pra fora, de fora pra dentro,
exalando a maresia da paixão:
Pela carne vivemos, pelos ossos morremos,
e vice e versa.

E a gente ainda reclama que fica preso no trânsito,
no metrô, no trem, no ônibus,
Igual a uma cobra presa no buraco!
E o rabo preso então, maculado caminho.

Porque se eu virar vegetariano
vou ter que comer a plantinha que nasce na calçada...

9.12.09

by Danilo



"Que tua mente e teu suor te lancem ao infinito distante,
e que tua força reflita nos corações de quem lhe vê.
Sorte e Paz, meu caro amigo."


vai e volta inusitado



tiro certeiro no horizonte reto
um momento em três mil
espaço curvo e aberto


olhar febril,
navio que procura farol,
coração em deserto

ah palavra bumerangue e sina,
voz no ouvido, bem perto,
e eis que a mente se ilumina

e de tanto dar com a cara na parede,
nos passos de formiga em que a humanidade persiste,
Vida agora dobrando a esquina